Feiras Medievais, Controlo de Pragas e Falcoaria? Desfazer a confusão

Distinção entre demonstrações e falcoaria

Neste artigo vamos ajudar a fazer a distinção entre demonstrações e controlo de aves com aves de rapina e a falcoaria.

Quem visita uma feira medieval em Portugal encontra, quase invariavelmente, uma exposição de aves de rapina ou uma demonstração de voo. Da mesma forma, em aeroportos, aterros sanitários ou centros comerciais, é cada vez mais comum ver águias ou falcões a sobrevoar as instalações com o objetivo de afugentar pombos e gaivotas.

A reação natural do público perante estes cenários é de espanto e interesse legítimos. Contudo, devido à escassez de informação detalhada, a tendência geral é a de catalogar imediatamente tudo o que envolve estas aves como “falcoaria”. Esta confusão é, muitas vezes, alimentada pelas próprias entidades promotoras destes serviços, que ostentam fardamento ou anunciam as suas atividades sob essa designação para captar a atenção do público.

Importa ser claro: embora estas atividades tenham a sua relevância e utilidade, do ponto de vista técnico, histórico e legal, a designação de falcoaria é incorreta. Utilizar aves de rapina para entretenimento público ou para a prestação de serviços ambientais não constitui a prática desta arte. A distinção clara é fundamental para preservar a identidade de um património classificado e para garantir o rigor técnico que a conservação destas espécies exige.

A Definição Pura: O que é a Falcoaria?

De acordo com a definição formal da UNESCO — que classificou a atividade como Património Cultural Imaterial da Humanidade —, a falcoaria é a arte tradicional de treinar e cuidar de aves de presa para caçar animais silvestres no seu meio natural.

A falcoaria é uma forma de caça natural

Foto: Don Richardson

A essência da falcoaria reside na relação bilateral entre o falcoeiro e a ave, e o seu fim exclusivo é o ato venatório (a caça). Trata-se de uma simbiose onde o falcoeiro e o predador agem em conjunto para atingir um fim que é natural à ave, sem recurso a artifícios ou objetivos comerciais. Resumidamente: se o voo da ave não tem como propósito a captura de uma presa selvagem no seu habitat, a atividade não se enquadra na definição da arte.

Esta posição é defendida de forma unânime a nível internacional. A Associação Internacional de Falcoaria (IAF), que representa mais de 80 associações em todo o mundo, refere expressamente na sua constituição:

“Falconry is the traditional art of taking quarry in its natural state and habitat by means of trained birds of prey. It is a hunting art.” (A falcoaria é a arte tradicional de capturar presas no seu estado e habitat naturais por meio de aves de presa treinadas. É uma arte de caça.)

Em perfeita sintonia, a Associação Portuguesa de Falcoaria (APF) espelha este princípio nos seus estatutos (artigo 3.º), definindo-se como:

“[…] uma associação de caçadores com ave de presa, de âmbito Nacional, que tem como objetivo último zelar pela prática da Falcoaria em Portugal, sendo esta definida como: ‘a captura de presas selvagens no seu habitat natural com uma ave de presa treinada para o efeito’.”

O Mito nº 1: As Demonstrações em Feiras Medievais

Demonstração medieval com aves de rapina

As exibições de aves de rapina em recriações históricas e eventos públicos pertencem exclusivamente ao âmbito do entretenimento cénico, da educação ambiental ou da animação cultural. Existem diferenças estruturais intransponíveis entre estas apresentações e a falcoaria:

  • Objetivo do treino: O treino foca-se em voos de exibição perante o público, com fins puramente pedagógicos e de lazer. Ao contrário da falcoaria, este comportamento não satisfaz a função biológica e o instinto natural de caça da ave.

  • Seleção de espécies: É frequente o uso de espécies sem qualquer relevância na falcoaria tradicional. O exemplo mais comum é o uso de aves noturnas, como várias espécies de corujas e mochos, cuja morfologia e comportamento biológico não estão adaptados à caça diurna praticada nesta arte.

Embora estas exibições desempenhem um papel pedagógico válido na aproximação do público à fauna, devem ser designadas rigorosamente como “demonstrações de voo livre” e nunca como falcoaria.

O Mito nº 2: O Controlo de Fauna

O controlo de fauna ou de pragas através de aves de rapina é uma atividade técnico-comercial inserida na gestão ambiental e na segurança de infraestruturas críticas (como a aviação). A mecânica desta atividade difere da falcoaria num ponto essencial:

  • O fator dissuasão: O objetivo principal do controlo de fauna não é a captura das espécies que causam o problema (como pombos, gaivotas ou estorninhos), mas sim a indução do medo. A presença visual e o voo territorial constante de uma ave de presa fazem com que as aves locais identifiquem aquela área como uma zona de perigo real, forçando a sua dispersão voluntária.

Muitos dos operadores que executam estes serviços são, a nível privado, falcoeiros e utilizam as mesmas bases de maneio e treino. No entanto, o serviço que prestam às empresas visa o afastamento de espécies problemáticas e constitui uma atividade económica regulada por alvarás comerciais, totalmente distinta da prática desportiva, cultural e tradicional da caça por falcoaria.

Porque importa esta distinção?

A demarcação clara de fronteiras entre estas áreas é imperativa por motivos de ordem legal, ética e reputacional:

  • Enquadramento Legislativo: A falcoaria em Portugal está estritamente regulada pela Legislação que regulamenta a Caça, exigindo exames próprios para a obtenção da Carta de Caçador. As empresas de controlo de pragas e de espetáculos, por terem fins lucrativos e moldes operacionais distintos, operam sob licenças, alvarás e seguros de responsabilidade civil específicos.

  • Impacto na Opinião Pública: Confundir as atividades prejudica o conhecimento do público sobre a verdadeira natureza da falcoaria. Além disso, faz com que quaisquer falhas de bem-estar animal, acidentes ou problemas comerciais que ocorram em empresas privadas ou eventos de entretenimento sejam erradamente atribuídos à comunidade de falcoeiros tradicionais, que rege a sua conduta por códigos de ética rigorosos.

Conclusão

As feiras medievais e as operações de controlo de fauna recorrem a aves de rapina legítimas e a técnicas adaptadas do maneio milenar destas espécies, desempenhando funções válidas na sociedade atual — seja no lazer ou na segurança coletiva.

Contudo, a falcoaria subsiste num espaço que lhe é exclusivo: o campo aberto, a preservação do instinto predador em estado puro e o exercício ético da caça. Manter estes conceitos separados é o primeiro passo para respeitar a verdade histórica, técnica e legal desta tradição em Portugal.