Quarta-feira , Junho 28 2017

Bem-estar animal e Falcoaria

ÍNDICE:

 

INTRODUÇÃO:

A falcoaria é define-se como: “A captura de espécies cinegéticas no seu habitat natural utilizando aves de presa”. A abordagem a esta temática deve ser entendida neste contexto específico e não se aplica, necessariamente, a aves mantidas para outros fins. 

Para a prática da falcoaria é necessária a existência de duas premissas:

  1. Uma ave completamente saudável e livre de stress de tal forma que é física e psicologicamente capaz de capturar as suas presas;
  2. Uma ave sem reservas/medo para com o ser humano de tal forma a que partilhe o momento de caça e a presa com o falcoeiro. 

Estas premissas permitem a existência de uma parceria única e mutuamente benéfica entre ave de presa e falcoeiro. A única forma de conseguir uma performance excelente por parte de uma ave de presa em falcoaria é conseguir que esta se encontre na sua melhor forma física, com um bom estado de saúde e sujeita a um mínimo de stress. 

298716_316672488350307_1524790151_n.jpg
A caça é a máxima demonstração do bem-estar de uma ave de presa | Foto: Sean Whitehurst

 

Existe um corpo de conhecimentos que foi desenvolvido durante mais de 4000 mil anos de prática da falcoaria a nível mundial. Estes conhecimentos têm com objectivo optimizar a performance das aves de presa na caça, minimizar o stress e prevenir a ocorrência de doenças.

Para compreender o comportamento da ave de presa e compreender a forma como os falcoeiros treinam estas aves devemos ter em conta as razões para o comportamento animal. Cada comportamento tem, pelo menos, o objectivo de preservar a vida do mesmo de forma a que possa transmitir os seus genes à geração seguinte. As aves de presa têm uma taxa de sobrevivência, no seu primeiro ano de vida, de aproximadamente 20% em estado selvagem. Isto significa que cerca de 80% morre no seu primeiro ano de vida, sendo a fome a razão principal. Por esta razão estas aves evoluíram de forma a preservar/conservar a sua energia e são maioritariamente animais sedentários/pouco ativos quando não estão a caçar.   

Além de motivações positivas, o comportamento das aves de presa pode ser influenciado por influencias negativas. Nas espécies sociais, como cavalos ou cães as imposições realizadas por animais que ocupam lugares mais elevados nas estruturas hierárquicas podem conduzir a alguma alteração de comportamentos. As aves de presa não são animais com este grau de vida social e por essa razão, qualquer tipo de imposição ou castigo infligido pelo falcoeiro não seria compreendido, não levaria a qualquer tipo de aprendizagem benéfica e simplesmente levaria a que a ave evitasse o falcoeiro. Por esta razão o treino da ave de presa em falcoaria, baseia-se única e exclusivamente no reforço positivo e no evitar de situações que levem ao stress da ave.  

Além desta integridade etológica, a integridade física é crucial em falcoaria. Os cuidados veterinários são cruciais e as aves devem ser observadas profilaticamente, idealmente, duas vezes por ano. Cuidados veterinários adequados devem ser realizados sempre que necessário. A manutenção das penas de voo é fundamental e deve ser uma prioridade para todos os falcoeiros (danos ligeiros nas penas de voo podem ocorrer durante a caça e devem ser distinguidos de danos severos e completos nestas penas).

uae-66688.jpg
Hospital de falcões no Médio Oriente | Foto: www.uaeinteract.com

 

O QUE SIGNIFICA BEM-ESTAR ANIMAL?

O termo “bem-estar animal” pode ser analisado sob o ponto de vista jurídico, estético, ético ou biológico. No contexto da falcoaria o aspecto biológico do bem-estar animal deve ser abordado, especialmente, porque não existem diferenças biológicas entre as aves de falcoaria e os seus congéneres selvagens, independentemente do background cultural ou legal do falcoeiro.

Dois conceitos são bastante relevantes para a análise deste tema: 

  1. Suprir necessidades e evitar a dor;
  2. Conceito das Cinco Liberdades

Suprir necessidade e evitar a dor

Este conceito foi elaborado por um grupo de etólogos suíços e alemães (o grupo de trabalho em etológia da Sociedade Alemã de Veterinária, Tschanz et. Al., 1987) e foi publicado pela primeira vez em 1987. Atualmente é o método mais utilizado para decidir se um determinado fenómeno tem ou não relevância para o bem-estar animal.

O conceito de atender às necessidades e evitar a dor sugere que cada organismo é capaz de se auto-manter e preservar. Para isso, o animal usa as suas capacidades fisiológicas, morfológicas e etológicas, adquirida pela evolução e pela ontogenia individual. Com estas capacidades o animal utiliza ou evita estruturas e condições no seu ambiente (se um animal é mantido em cativeiro, as estruturas e as condições são ditadas por homens) para se adaptar e prosperar.

Se a capacidade de adaptação de um animal é ultrapassada podem ocorrer danos fisiológicos, morfológicos e /ou etológicos . Os danos físicos pode ser facilmente observados, mesmo sem o conhecimento sobre a espécie animal, e não há dúvida sobre alguma relevância que as lesões físicas têm para o bem-estar do animal. Os danos etológicos são reconhecidos como distúrbios de comportamento, como os comportamentos estereotipados. Estes, na maioria das vezes, não são fáceis de detectar, e há muito mais discussão sobre se determinado comportamento indica realmente um problema de bem-estar.

O conceito de atender às demandas e evitar o danos postula que se houver uma quantidade significativa de danos causados por um sistema de manutenção ou gestão de um animal, este sistema deve ser reconhecido como não compatível com o bem-estar animal. Para esta avaliação a gravidade do dano deve ser levada em consideração.

Bia-1.jpg
Aves de presa bem mantidas não apresentam danos físicos ou psicológicos | Falcão Lanário de Paulo Pinhal.

 

Conceito das Cinco Liberdades

O conceito do Cinco Liberdades foi criado pelo Farm Animal Welfare Council, em 1979. Este conceito centra-se, essencialmente, em animais sociais. Muitos dos padrões comportamentais destes animais não são partilhados pelas aves de presa. As aves de presa são essencialmente animais solitários e, por essa razão,a companhia de outros indivíduos da sua espécie do animal não é crucial como seria no rebanho ou reunindo-se animais.

  1. A liberdade de fome e sede: pelo acesso a água fresca e uma dieta adequada para manter a saúde e vigor;
  2. Liberdade de desconforto: proporcionando um ambiente adequado, incluindo abrigo e uma área confortável para descanso;
  3. Livre de dor, lesão ou doença: de prevenção através de diagnóstico e tratamento rápido;
  4.  Liberdade para expressar comportamento normal:, proporcionando espaço suficiente, instalações adequadas, possibilidade de voar e caçar em liberdade e a companhia de sua espécie do animal se necessário;
  5. Livre de medo e angústia: por condições que assegurem e tratamento que evitem sofrimento mental.

Todos estas premissas se encontram asseguradas para as aves em falcoaria.

white.jpg
Poleiros adequados e acesso à água são fundamentais | Foto: Marshallradio.com

 

BEM-ESTAR E AVES “SELVAGENS”

A maioria da população aceita a manutenção de animais em cativeiro. Isto pode ser verificado pelo grande número de animais mantidos como animal de estimação. O Homem tem uma grande necessidade de viver em conjunto com animais. A posição “quem gosta de animais não tem animais” é apenas defendida por uma pequena minoria de pessoas. 

Podemos, também, questionar se é aceitável a manutenção em cativeiro de animais cujos coespecíficos vivem normalmente na natureza (“animais selvagens”)?  Na realidade TODOS os animais que são detidos pelo Homem devem ser tratados de forma adequada no respeito pelas suas necessidades etológicas, não existe uma diferença nesse campo entre “animais selvagens” ou “animais domésticos”. Mais, na verdade, não existe qualquer evidência que a domesticação tenha feito surgir novos padrões de comportamento nas espécies animais, apenas terá aumentado ou diminuído a intensidade de padrões de comportamento já existentes. O critério a usar para verificar a manutenção do bem-estar animal não deve ser o de “há quanto tempo” determinado animal ou os seus ancestrais têm sido mantidos pelo Homem, mas se é ou não possível atendar às suas necessidades específicas. Para dar um exemplo: não se pode considerar problemática a manutenção de animais cuja espécie existe normalmente em estado selvagem se não houver demonstração de sofrimento, dano ou dor. No entanto, manter um animal doméstico que apresenta comportamentos estereotipados, que apresenta danos físicos ou que é mantido num ambiente pouco seguro é, isso sim, um problema do ponto de vista do bem-estar animal. 

 

DÚVIDAS FREQUENTES SOBRE BEM-ESTAR ANIMAL E FALCOARIA

O maneio e transporte das aves

Para um manuseamento adequado, uma ave de falcoaria tem de ser equipado com piós (pequenas tiras de cabedal) em cada um dos tarsos-metatarso. Como os cães com coleiras ou rédeas de cavalos, as aves podem ser manuseados com as piós durante o treino, no campo e podem ser presas sempre que necessário para sua segurança. Existem diferentes tipos de piós, dependendo das espécies de aves e do património cultural do falcoeiro. As piós são confeccionadas de forma individual e aplicadas usando sistemas que não estrangulam ou sequer apertam fortemente o tarso da ave. Este equipamento é avaliado com regularidade para prevenir desgaste e substituído sempre que necessário. 

As aves de presa são orientadas, quase em exclusivo, pela visão. Para evitar o stress excessivo, para facilitar o transporte ou para impedir que vejam uma presa que não devem capturar, os falcoeiros usam um artefacto chamado caparão que cobre a cabeça da ave de forma a limitar o estimulo visual. O caparão é confeccionado individualmente e nunca toca os olhos da ave. As aves ficam calmas e relaxadas sempre que é colocado o caparão. 

Para facilitar o transporte das aves no carro, os falcoeiros recorrem a caixas de transporte especificamente construídas que ajudam a transportar as aves em segurança durante a viagem. 

41_zpse96a5413.jpg
Falcão Peregrino no seu bloco. Autor: desconhecido.

 
Alojamento

As aves em falcoaria devem estar sempre resguardadas das inclemências do tempo, em especial chuva, sol ou vento intenso. No entanto devem ter acesso a desfrutar do exterior com regularidade. Os alojamentos devem ser limpos com frequência e a ave deve ter acesso regular e diário a água. As aves devem ser alojadas tendo sempre em conta a sua segurança, em especial, no que toca à existência de outros animais que possam atacar a ave de presa (cães, gatos, etc.).

No inicio do treino é geralmente essencial que a ave esteja presa a um poleiro. Existem diferentes tipos de poleiros especialmente concebidos consoante a espécie de ave de presa e o seu tamanho. O falcoeiro escolhe o poleiro dependendo da espécie do falcão, o estado do treino e do local onde a ave ficará instalada. Os Falcões são espécies que geralmente poisam em saliências rochosas e por essa razão os poleiros “em bloco” são mais adequados. Já os Açores e outros accipitriformes poisam, geralmente, em árvores e por essa razão os poleiros em arco são preferíveis por simularem este tipo de superfície. Manter uma ave presa a um poleiro é algo recomendado apenas para as aves usadas em falcoaria que regularmente praticam o voo/treino ou caça.

As mudas são instalações “fechadas” onde as aves são mantidas soltas. Devem ter tamanho adequado à espécie a albergar devendo este ser determinado pela avaliação do falcoeiro. Manter uma ave numa instalação grande demais pode não ser adequado se a ave se puder magoar inadvertidamente ao atingir demasiada velocidade no voo dentro da instalação. 

Em todos as formas de alojamento exige-se avaliação cuidada e constante da ave e da forma como a mesma se comporta. 

gry-saker.jpg
Casal de falcões repousa na sua muda. Neste caso uma muda de cria de Nuno Garcia | Foto: Neal Marques

 

Treino

O objectivo do treino é para ajudar a ave a atingir uma excelente forma física e ensiná-la a capturar presas com sucesso. As aves de presa são atletas e como acontece com os atletas humanos, a sua gordura corporal tem de ser reduzido, mas não esgotado totalmente; a sua massa muscular tem de ser construída através do exercício físico. O peso corporal, apesar de ser um dado importante,  não é o principal indicador para a motivação na caça, sendo necessário ao falcoeiro avaliar, de perto, o comportamento da ave. É muito útil a utilização balanças adequadas para avaliar o peso e documentá-lo diariamente. O peso corporal fornece uma boa indicação de apetite da ave e saúde em geral.

Diferentes exercícios foram desenvolvidos para melhorar o condicionamento físico, dependendo da espécie de ave de presa, estes podem ser importantes se não é possível praticar a caça durante um determinado período. Por norma o alimento é dado à ave como recompensa após a realização de algum esforço. Para os aves de alto-voo o treino ao rol, papagaio de papel ou balão de ar quente são boas formas de conseguir o exercício físico necessário. Para aves de baixo-voo, como açores ou Búteos Harris, o voo ao punho, voos ao rol ou saltos verticais podem ajudar na melhoria da condição física.

1015186_1.jpg
O treino é fundamental à manutenção do bem-estar das aves de presa | Falcoeiro: Manuel Coelho.

 

Caça

Durante a caça a prioridade do falcoeiro deve ser sempre a segurança da ave de presa e o prevenir do sofrimento desnecessário da presa uma vez capturada. O falcoeiro deve prestar, por essa razão, atenção aos perigos que podem resultar de tráfego rodoviário, outros animais, pessoas ou factores ambientais.

O tamanho da presa deve ser tido em consideração de forma a não por em risco a ave de presa. 

Uma vez capturada pela ave a sua presa, e caso ainda se encontre viva, deve ser morta pelo falcoeiro da forma mais humana e rápida possível. 

IMG-20151129-WA00031.jpg
A caça é uma das necessidades etológicas da aves de presa | Falcoeiro: David Guerreiro.

 

RECOMENDAÇÕES

Para assegurar o bem-estar das aves de presa mantidas em cativeiro recomendamos a todas as pessoas interessadas em praticar falcoaria a realizar um curso de iniciação ou a acompanhar um falcoeiro durante, pelo menos, uma época de caça. Mesmo não sendo obrigatório por lei, a frequência de um curso de iniciação ou se possível o acompanhar de um falcoeiro podem ajudar no processo de aprendizagem e ser um garante para o bem-estar das aves de presa.

Recomendamos igualmente aos aspirantes a falcoeiro que se filiem numa associação de forma a conseguirem entrar em contacto com outros falcoeiros. 

Nota: Este documento é uma adaptação das indicações propostas pela International Association for Falconry and the Conservation of Birds of Prey (IAF) que podem ser acedidas em: www.raptorwelfare.org. A IAF reconhece às associações nacionais a prerrogativa da adaptação das suas indicações às suas contingências específicas.