Relato dos representantes Portugueses sobre Festival de Falcoaria 2017

 

Autor e fotos: Gonçalo Abreu

É já com um enorme sentimento de saudade que escrevo este breve texto.

Foi uma viagem memorável, que certamente nem eu, nem o José Geadas, iremos esquecer nunca!

É indescritível a emoção e a adrenalina que se sente quando aterramos num país tão distante do nosso, depois de uma viagem bastante longa e cansativa, mas com um evento tão grandioso pela nossa frente. Afinal este é só, o festival que reúne todo o mundo da falcoaria num só local, no seio de uma nação tão “recente” (de relembrar que os Emirados Árabes Unidos apenas contam com 46 anos de existência) mas tão hospitaleira, que não obstante das enormes diferenças culturais e de língua, nos fez sentir bem recebidos e em casa!

Foi uma chegada atribulada, com uma visita ao gabinete dos passaportes sem uma explicação aparente, mas que rapidamente foi resolvido! Tínhamos já à nossa espera a agência de viagens, com uma carrinha pronta para nos levar ao hotel, onde fomos dos primeiros a chegar. Após umas horas a dormir, pudemos saborear o melhor do turismo árabe com um dia inteiro na piscina (com uns impressionantes 30º dentro de água) e no spa, já que o festival só começava no dia seguinte e ainda faltava chegarem todos os outros participantes! Aproveitámos para nos inscrever para as caçadas no deserto que iriam ocorrer nos próximos dias, já que supostamente os lugares eram “contados”.

Nesta edição a organização optou por um festival diferente dos anteriores. Não houve “desert camp” no seu verdadeiro sentido, onde normalmente ficaria toda a gente nos primeiros dias, a acampar em tendas no meio do deserto. Em vez disso, os participantes ficaram alojados em hotéis durante todo o festival, havendo uma comitiva de autocarros diariamente a levar e a trazer os representantes nacionais para os diferentes locais. A meu ver, o que se ganhou a nível de conforto, perdeu-se em tempo de viagens e interacção com os outros participantes, interacção essa que tanta riqueza tráz a este festival pela troca constante de experiências e de ideias entre falcoeiros do mundo. Assim, nos primeiros 4 dias houve caçadas no deserto, workshops e palestras sobre diversos temas, num acampamento montado no resort “Telal”, onde se situa a “Escola de Falcoaria e Fisionomia Do Deserto”. Neste local as crianças podem ter aulas práticas sobre falcoaria e património cultural do seu país, numa época em que a tecnologia e desenvolvimento quase nos faz esquecer que há 50 anos atrás, toda esta nação eram povos “Bedouins”, nómadas do deserto! Dos workshops a que assistimos, foram particularmente interessantes os de construção de caparões, falcoaria com grandes águias e uma explicação detalhada do funcionamento da escola.

 

Caça no Deserto

Tivemos várias oportunidades de acompanhar as caçadas à houbara. Fomos divididos em grupos para acompanhar um falcoeiro com a sua ave, que nos levou no seu SUV durante toda a caçada. Em todas as vezes que fomos, vimos excelentes voos, com lances a perder de vista no horizonte, mas também alguns lances desinteressantes, com houbaras com muito pouco poder de voo. De qualquer maneira os melhores voos são espectaculares e emocionantes. Foi muito bom ver que mesmo com dificuldades na comunicação, fomos dos poucos que tiveram o privilégio, em algumas das caçadas, de soltar e manejar os falcões do próprio falcoeiro. É certo que não fomos os únicos, mas houve vezes em que o nível de confiança que depositavam em nós já era bastante elevado! Outra das experiências mais marcantes de todo o festival, que nos deixou alucinados, foi verificar a velocidade a que se deslocam no deserto (chegamos a atingir 180Km/H num SUV no meio do deserto), a maneira como usam os jipes para “surfar” nas dunas, a leveza com que levam os seus falcões pousados no descanso do braço do condutor, o enorme poder de voo que estas aves apresentam (maioritariamente híbridos de gerifalteXperegrino, gerifaltes puros e peregrinos puros) e, claro, a simpatia dos nossos anfitriões que de cada vez que nos viam durante as caçadas nos saudavam com um “amigo!”.

Foi também numa destas idas ao deserto que surgiu uma enorme empatia, atrevo-me mesmo a dizer amizade, com os representantes Mexicanos, também eles jovens, mas com uma experiencia de campo bastante mais larga, sendo todos eles filhos de falcoeiros! Foi um enorme prazer compartilhar largos momentos com estes companheiros, que têm uma realidade bem diferente da nossa, mas que mesmo assim nos pediam opinião sobre diversos temas e sobre os tipos de aves que eles mesmos voam, uma prova de humildade e simpatia! Ficaram também reconfirmadas as nossas boas relações com os companheiros Brasileiros, que como já nos haviam acostumado primam pela boa disposição e vontade de saber mais, tendo em conta as dificuldades que passam no seu país para praticar esta arte!

 

Festival na cidade

Já no final do festival, a comitiva mudou-se de Al Ain para Abu Dhabi. Chegara a vez de mostrarmos a nossa falcoaria Portuguesa ao resto do mundo, desta vez no Khalifa Park. Cada país tinha o seu “stand” numa tenda que a nós calhou ser partilhada com a Índia. Se já havíamos conhecido bastante gente até este ponto, então aqui se aprofundam amizades e se fazem novas, com as visitas às tendas das outras nações, partilha de fotografias e histórias e a constante pergunta que se faz ecoar: “o que é que vocês voam no vosso país?”. É um evento aberto ao público e com uma grande afluência, de todas as faixas etárias e tivemos, entre outras, a visita de Sua Alteza, o Sheik Mohammed bin Zayed Al Nahyan. Trocam-se presentes e souvenirs, últimas fotografias com os amigos, compras no “souk” montado no local (com materiais iguais aos que são importados, mas com o preço de “fábrica”) e mais importante que tudo, fazemos a representação oficial do nosso país neste evento, com muita gente interessada em ouvir o som da guitarra portuguesa (tocada com excelência pelo nosso fadista e falcoeiro José Geadas) e um geral interesse pela nossa falcoaria, que tanta história e património carrega consigo!

Foi ainda durante este período que fomos presenteados com o “jantar de gala”, que não estávamos à espera. Um pomposo banquete preparado com todo o cuidado, em frente ao Hotel Ritz Carlton e com uma majestosa vista sobre a Grande Mesquita! Foram entregues prémios de mérito e honra aos participantes do primeiro festival que ocorreu há 40 anos atrás e todos tiveram direito a música e animação pela noite fora, com danças tradicionais, cabine de fotos, caligrafia em árabe e mais uma prova da boa gastronomia árabe!

As noites

Regra geral, as noites passadas no hotel foram sempre na companhia de várias pessoas, trocando lembranças, em conversas sobre caça e tantos outros temas. Nem só de falcoaria vive o Homem, e a música também quebra fronteiras. Levámos o nosso fado e o cante alentejano além-fronteiras e tivemos também a hipótese de experimentar outros instrumentos como a cítara, e de cantar canções de outras nacionalidades, acompanhados à guitarra portuguesa! Amigos do Paquistão, Brasil, México, Paraguay, Argentina, Índia e tantos outros encontravam-se depois de jantar no espaço comum do hotel ou em algum bar nas redondezas, para fazer valer todos os minutos deste festival!

Agradecimentos

Por fim não posso deixar passar a hipótese de agradecer à IAF pela organização do festival e por nos permitirem participar com dois representantes patrocinados a 100%; A todos os que nos receberam tão bem no país deles, proporcionando experiências que nunca irei esquecer; Aos nossos amigos do Brasil, México, Paraguay, Argentina, Urugay, Itália, Índia, Paquistão, USA (espero não me esquecer de ninguém) por tantos bons momentos e tantas horas de conversa e diversão que nos proporcionaram; à APF por todo o apoio logístico e tudo o resto!

Tanto mais haveria para escrever, mas tudo não caberia num só apontamento! Fica uma enorme vontade de um dia regressar, na ilusão de rever tantos amigos e pessoas fantásticas com quem tivemos o privilégio de privar neste evento exclusivo que foi o Quarto Festival de Falcoaria!