
O terceiro festival de falcoaria decorreu em Abu Dhabi de 7 a 14 de Dezembro. Este evento, organizado pelo Clube de Falcoeiros dos Emirados Árabes sob patronato de sua Alteza Real o Sheikh Khalifa Bin Zayed Al Nahayan (Presidente dos Emirados e governante do Dubai) tinha como missão congregar falcoeiros de todo o mundo para celebrar e dar a conhecer a falcoaria nas suas várias manifestações por todo o mundo.
Portugal teve a honra de poder contar com dois representantes nacionais – Pedro Afonso e Gonçalo Abreu e um artesão – Francisco Galamba, cuja viagem e estadia foi totalmente patrocinada pela organização do evento. A organização confiou missões específicas a cada um dos participantes patrocinados. Assim, à comitiva Portuguesa, esperava-se a representação e apresentação de Portugal no evento e a participação em todas as tarefas de organização que lhes fossem confiadas
A nossa comitiva partiu no dia 6 de Dezembro do Aeroporto da Portela. A nós juntou-se o presidente da APF e tesoureiro da IAF – António Carapuço, que se deslocou ao festival em representação da associação internacional (IAF). A viagem demorou cerca de 9h contando com a escala realizada em Paris.
Ao aterrar em Abu Dhabi percebemos imediatamente que ali se vive “uma outra realidade”. O traje branco típico árabe é a norma e os carros, estradas e edifícios são impressionantes (de referir que o preço da Gasolina é cerca de 0,9cet litro).
Dali rumamos ao “Desert Camp” em pequenos autocarros em que nos amontoamos. Depois de bastante tempo de viagem e do motorista se ter perdido pelo menos uma vez (o que é algo normal como percebemos depois) chegamos ao acampamento onde estavam já montadas as tendas que nos iriam servir de casa durante aqueles três dias. Depois de alguma dificuldade em perceber onde íamos ficar encontramos uma tenda que depois viemos a partilhar com companheiros da Finlândia (País onde viemos a perceber existir apenas 1 falcoeiro no ativo).
À chegada ao Desert Camp Ainda nesse dia e apesar de cansados, eu e o Gonçalo Abreu, resolvemos inscrever-nos de imediato, numa caçada às lebres no deserto. Tivemos sorte em conseguir lugar. Mais uma vez fizemos cerca de 2horas de viagem até ao local. A caça decorria numa zona protegida onde tem sido plantada alguma vegetação. Havia falcoeiros europeus a caçar com Harris e Red Tails e falcoeiros locais a caçar com Falcão (grandes híbridos). Resolvemos juntarmomos a esta comitiva, estávamos ansiosos por ver a verdadeira falcoaria árabe.
Tivemos sorte, o falcoeiro com quem caçamos sabia rastrear bem as lebres. É incrível como lêem a areia rapidamente e percebem para onde a lebre foi, onde parou etc. Depois de alguma hesitação nas primeiras lebres por parte do falcão vimos bons lances, de encher o olho, lances em que o falcão “quase” tocava na lebre e em que esta usava da finta para o evitar. Corremos muito para nos manter com o falcão e com a lebre. O nosso anfitrião chegou mesmo a dizer que tínhamos “alma de Saluki”.
O falcão tentou com todas as forças a captura – picados oblíquos, subidas vertiginosas, e um folego enorme – mas não lhe foi possível ter sucesso. Apesar do falcoeiro estar um pouco frustrado por não ter tido sucesso nós não podíamos estar mais satisfeitos. Estar ali, ver aqueles lances é suficiente para a maioria dos falcoeiros, a captura da presa é importante mas secundária a todo o espectáculo natural que ali vivemos.

A surpresa, no entanto, estava para chegar! Ao retornar ao ponto de partida verificamos que a comitiva já tinha partido para o acampamento…tínhamos sido abandonados no deserto. A caravana tinha partido, não havia muito a fazer. Depois de alguns segundos de preocupação percebemos que os nossos companheiros, que nos acompanharam na caçada, iriam levar-nos ao acampamento.
O caminho de regresso foi bem mais rápido do que o que fizemos até ali. Íamos bem depressa num magnífico jipe Lexus branco, rodeados de falcões e material de falcoaria. Chegados ao acampamento já a noite se estava a por e o frio a instalar. A excitação ainda venceu durante mais algumas horas em que andamos pelo acampamento a conhecer pessoas e falar sobre falcoaria. Nesse dia dormirmos pela primeira vez na nossa tenda, em enormes sacos-cama que não deixavam o frio da noite entrar.
O segundo dia começou com palestras – cujo moderador foi o nosso Presidente, António Carapuço, substituído a momentos por mim quando necessário – sobre “Falcoaria Prática” em que vários falcoeiros, de todo o mundo, falaram sobre os lances de caça que realizam. A caça à Narceja com peregrinos na Irlanda e o uso de esmerilhões no México foram palestras particularmente interessantes. Igualmente interessante a palestra dada pelo Dr. Nick Fox sobre o uso de presas robóticas para treinar as aves (uma inovação que vai ganhando folego nos países Árabes).
Durante este segundo dia a maior parte da comitiva permaneceu no acampamento, apenas o Gonçalo Abreu rumou ao Deserto com a comitiva de caça à Houbara a camelo. Mas sobre isso falamos um pouco mais à frente. Durante este período de permanência no Desert Camp pudemos conhecer falcoeiros de todo o mundo, partilhar experiências e histórias. Aqui há a referir a excelente surpresa que foi conhecer os nossos irmãos do Brasil, excelentemente representados pelo Presidente e Director Técnico da Associação Brasileira de Falcoeiros e Preservação das Aves de Rapina (ABFPAR): João Paulo e Bruno Silveira. Além de uma discussão interessante sobre a falcoaria em Portugal e no Brasil, também vivemos momentos de muito boa disposição e ficou a promessa e a vontade de estreitarmos laços entre as nossas associações no futuro (fotos mais abaixo).
Ao terceiro dia, no acampamento do Deserto, pudemos fazer uma vista à Grande Mesquita um local de culto, impressionante pelo seu tamanho e simbolismo. Mesmo não sendo relacionado com a falcoaria foi, sem dúvida, um local extraordinário e que valeu a pena visitar. Para saberem mais sobre a mesquita podem consultar o site: http://www.szgmc.ae/en/
Após esta visita tivemos a oportunidade de visitar o Hospital de Falcões de Abu Dhabi. Este é um local de enorme interesse para qualquer falcoeiro. Neste local pudemos perceber que este hospital recebe mais de 100 pacientes dia sendo que muitos já o visitam para a realização de análises de rotina. Depois foi-nos apresentado o percurso de um paciente tipo neste hospital, as câmaras de muda e salas de cirurgia. Como nota de curiosidade fica o facto de, além deste hospital ser uma referência no campo da veterinária em aves de presa ser, também, uma das principais atrações turísticas em Abu Dhabi.
No final deste dia, e depois de uma viagem bastante atribulada com alguns momentos em que claramente nenhum motorista sabia para onde ia, visitamos a Feira da Cultura dos Emirados, um evento com vários pontos de interesse e que reflectem a multifacetada cultura árabe, tais como: informação sobre corridas de camelo, o cavalo árabe, o saluki, as danças tradicionais e, é claro a falcoaria. Esse dia terminou sem outros pontos de interesse, mas temos de referir que a caravana de autocarros ainda se perdeu antes de chegar ao acampamento.
No dia seguinte fomos caçar Houbara a camelo (a forma tradicional de caçar esta espécie). Foi uma experiência bastante interessante. Temos de referir que o “conforto” é algo que não existe quando se monta um camelo. Sentimos que estamos num barco em terra firme devido ao seu baloiçar característico. A coluna do camelo, conjugada com uma sela menos apropriada, torna toda a viagem um pouco “desconfortável” para qualquer pessoa que não esteja habituada. Nesta caçada o grupo de caça dividiu-se em város grupos pequenos que eram liderados por um pequeno número de falcoeiros árabes também eles a camelo (os camelos estavam atados uns aos outros para facilitar a condução). Nessa caçada foram capturadas quatro houbaras das quais duas deram lances interessantes semelhantes ao clássico, com a houbara a voar grandes distâncias e o falcão a perseguir durante igual distância. Ainda tivemos tempo para uma paragem em pleno deserto para o tradicional chá e canções árabes. Voltar a casa sentado num banco de um autocarro (em vez de um camelo) foi um dos pontos altos desse dia.
O final do dia foi passado a ver alguns falcões voar no acampamento. Ai os falcões foram voados a uma presa robótica desenvolvida pela equipa do Dr. Nick Fox – a robara. Basicamente trata-se de um aparelho voador, em forma de houbara, telecomandado, que os falcões são ensinados a perseguir. Os pilotos desta “coisa” eram experientes e alguns falcões tiveram de se esforçar muito para os conseguir vencer nesta corrida aérea. Alguns dos voos foram bastante bons e afigura-se um grande futuro para esta invenção nos países árabes mas também noutros locais do mundo em que o acesso à caça é cada vez mais difícil ou mesmo ilegal.
O dia que se seguiu foi uma azáfama. A saída do Desert Camp para a cidade com uma paragem no local do Festival para montar o stand de Portugal e uma vista ao Abu Dhabi Falconers Club. Sobre o festival falaremos em seguida, agora sobre o Abu Dhabi Falconers Club não podemos deixar de elogiar a recepção que fizeram aos convidados internacionais com um excelente jantar árabe e cantares tradicionais. As instalações do clube são impressionantes contando com uma pista para aviões telecomandados nas imediações que são usados para treinar as aves. Para pertencer a este clube cada membro tem de pagar cerca de 800€ ano, valor que aumenta para mais do dobro caso queiram ter a sua ave a mudar nas instalações que disponibilizam.

Os dias que se seguiram foram dias de bastante trabalho com a representação nacional no festival. Foram, também, dias repetitivos muito semelhantes entre si (por economia de tempo aos nossos leitores relatamos apenas um destes dias). A nossa tenda, partilhada com “nuestros hermanos” Espanhois continha uma grande tela com fotografias de falcoeiros nacionais (apesar de termos enviado um poster já dimensionado este foi depois “transformado” pela organização ficando o resultado mais pobre que o original que tanto trabalho deu ao Francisco Galamba).
Contamos ainda com vários motivos nacionais, como o nosso fado. Além disso e graças ao Turismo de Portugal pudemos distribuir muita informação sobre o nosso país a todos os visitantes que se deslocaram ao festival, a maioria deles grande público, não relacionado com a falcoaria. Além desta tarefa de representação cabia-nos a função de desfilar na Grande Parada das Nações. Nesta parada deveríamos envergar um “traje nacional” e exibir a nossa bandeira. Na primeira parada (ocorria todos os dias) e devido à presença do Sheik (que chegou de helicóptero momentos antes) tudo foi mais exigente e ritualizado. Nesse dia não nos foi possível conseguir uma ave para o desfile (providenciada sempre momentos antes pela organização), nos dias seguintes desfilamos com um milhafre negro (uma das ultimas aves disponíveis) e no último dia com um bonito híbrido branco.
Todas as paradas demoraram mais do que suspeitávamos. O tempo até entrarmos na arena de desfile é imenso e depois de entrar parece que tudo é ainda mais demorado. Apesar de termos desfilado orgulhosos do nosso papel de defensores das nossas cores naquele evento também há a dizer que outros países levaram a tarefa muito a sério com demostrações de danças e trajes nacionais que, não tendo que ver com a falcoaria, representam a sua realidade nacional. Estes foram dias de grande interação com o público. Num dos dias, por exemplo, fomos visitados por crianças de muitas escolas da zona o que permitiu explicar um pouco sobre a falcoaria no geral e em especial no nosso país. Nestes dias fomos ainda visitados por alguns Portugueses que residem em Abu Dhabi (foi muito bom ouvir a nossa língua no meio dos visitantes). Há ainda a referir o grande número de jovens que nos visitou para perguntar por Cristiano Ronaldo. Informamos estes curiosos que contávamos com a sua presença mas que tinha acabado de ligar a cancelar a presença.
Os dias foram passando até que chegou o momento de regressar a Portugal. A maioria de nós estava bastante cansada por conta dos dias cheios e das noites curtas. Em grande parte foi bom voltar a Portugal. A viagem foi difícil e uma parte de nós ficou em Abu Dhabi pelo menos durante alguns dias mais. Voltar à nossa realidade nem sempre é fácil, especialmente quando regressados do maior evento do mundo relacionado com a falcoaria, mas chegámos sentindo que havíamos cumprido o nosso dever e dignificado a nossa participação. Esperamos que esta iniciativa fabulosa possa continuar a acontecer no futuro para que outros possam ter a mesma oportunidade que nos foi concedida.
Autor: Pedro Afonso
Apfalcoaria.org Associação Portuguesa de Falcoaria