Nirvana e Íris – A primeira época de baixo-voo à lebre com cão de parar

 

Caça à Lebre com Açor

“…digamos que era um objectivo pessoal que eu tinha desde que me iniciei na Falcoaria, e esse objectivo era ter uma Fêmea de Açor a caçar com um cão de mostra ou de parar. “

 

Índice: 

 

 

Introdução

Em 2016, depois de alguns anos a voar uma Fêmea de Harris, decidi dar uma “volta” a minha Falcoaria, digamos que era um objectivo pessoal que eu tinha desde que me iniciei na Falcoaria, e esse objectivo era ter uma Fêmea de Açor a caçar com um cão de mostra ou de parar. Umas das pessoas que eu tinha como referencia nesse objectivo era o Roberto Deus, desde que nos tornar-mos amigos, fiquei maravilhado com a forma como ele caçava, e decido que era aquilo que eu queria para os meus próximos anos na Falcoaria.

 
Escolha da raça de cão

O cão de caça é um bom companheiro em falcoaria
O cão de caça é um bom companheiro em falcoaria

 

Como a fêmea de Açor so iria chegar por volta de Julho, achei que seria melhor ir buscar o cão (neste caso cadela) antes da Fêmea de Açor chegar, o que me daria tempo para começar a treinar e introduzir na caça. Mas um dos meus dilemas era escolher a raça, tinha quatro raças como referência: Epagnuel Breton, Perdigueiro Nacional, Pointer e Setter Inglês.

Devido aos tipos de terrenos, temperatura e presas que iria caçar, acabei por escolher Epagnuel Breton. É um cão “4×4”, consegue caçar em zonas abertas, como em zonas com matos densos, para alem disso, como vivo no Alentejo, com altas temperaturas, os Bretons são cães que se adaptam muito bem as temperaturas elevadas que aqui se fazem sentir no Alentejo, outra das minhas convicções era escolher uma cadela, sempre fui da opinião que as cadelas são mais “caçadoras” e mais nobres que os cães.

 

A minha cadela – Irís

Iris e Nirvana - Equipa de caça à lebre
Iris e Nirvana – Equipa de caça à lebre

 

Depois de escolher a raça, decidi então procurar um criador, tinha como principal referencia a questão de ser uma linha de caça, e depois de procurar pela internet e pedir referencia a amigos, foi-me dado o contacto de um senhor espanhol que vive em Alconchel, zona de Olivenza,  entrei em contacto com o mesmo, e ele disse-me que tinha apenas uma cadela de cor Tricolor, mas que não iria vender porque a cadela era tão linda, que iria ficar com ela, confesso que não tinha grande interesse nos tricolores, preferia aqueles com mais preto e branco, mas depois do criador me enviar a foto da cadela, fiquei maravilhado! “Que linda!!!!”  (pensei eu).

E depois de tanto “chatear” o criador, la o convenci a vender-me a cadela, no dia 22 de Dezembro, logo a seguir ao dia de trabalho, peguei no carro e meti-me ao caminho com o meu José Geadas, quando cheguei ao local combinado, e vi a cadela, fiquei apaixonado!

E acreditem que quando cheguei a casa com ela, a beleza da cadela mudou a opinião e a forma como a minha mulher vi-a a entrada de um cão em casa. Até a deixei escolher o nome para ela, de pronto ela escolheu baptiza-la de Irís, eu até acho que ela já tinha escolhido o nome!

 

Introdução da Íris na caça

A Íris chegou a casa com 2 meses, como me pareceu muito cedo para começar a introduzi-la a caça, só por volta dos 4 meses comecei a leva-la ao campo, na minha opinião, ate nas nossas aves é assim, um dos factores principais para fazer um bom cão de caça, é ter terrenos com caça para que o cão comece a conhecer os cheiros das presas, é isso que faz com que o instinto natural de um cão de caça apareça de forma natural, e foi isso que fiz, não adaptei nenhum tipo de treino especial.

Apenas me dediquei a leva-la todos os dias ao campo com alguma caça, e acreditem a cada semana via-se a sua evolução, as únicas coisas que fiz pelo meio, foi utilizar a cana como muitos chamam, que consiste em ter uma cana com um fio e na ponta desse mesmo fio, uma asa de algo, neste caso escolhi meter uma asa de uma codorniz, fí-lo apenas uma vez por curiosidade, porque sempre ouvi dizer que não se devia abusar desse mesmo treino.

Este treino consiste em apurar a mostra ou paragem do cão, e logo na primeira vez que tentei a Íris mostrou a sua primeira paragem, outra das coisas que também foi utilizar codornizes de voo, espalhava-as pelo o campo e depois colocava a cadela a procura-las, e isso fez com que ela tivesse uma busca mais rápida.

Aos 5 meses fez a sua primeira paragem a uma presa selvagem, e partir daí foi vê-la a evoluir de forma natural, vocês não imaginam a quantidade de vezes que a cadela foi ao campo durante a primavera, foi raro o dia que ela não foi campo. O meu pai passeava-a em zonas com alguma densidade de coelhos e, vê-la numa busca super rápida, a fazer paragens espectaculares, deixava-me super motivado para o meses que se aproximavam. Como 90% das presas que ela vi-a eram presas de pêlo (Coelho e Lebre), ela ficou completamente viciada no pêlo, agora podia vir a fêmea de açor!

 

A escolha do criador da Fêmea de Açor

Fêmea de Açor Finlandês
Fêmea de Açor Finlandês

 

A escolha do criador para mim não foi nada difícil, tenho há muito tempo uma amizade especial com o Cristobal Perez (nome do criador), desde do tempo que voei as minha fêmea de Harris, foi do centro de cria dele que saiu a minha Fêmea de Harris, o centro de cria chama-se: NÚCLEO ZOOLOGICO KIZAR, esta localizado na Catalunha (Espanha), mais especificamente numa localidade chamada Terrasa, muito perto de Barcelona.

Permitam-me que faça esta pequena homenagem ao Cristobal, porque a ele se deve muito esta minha nova aventura. Optei por fazer a reserva da minha ave muito tempo antes da época de cria, porque teria muito tempo para ler e pensar o que fazer para depois quando chegasse a ave, eu estar mais preparado. Escolhi o tipo de cria parental, criada pelos pais numa muda fechada. Que so viria a sair da mesma entre 58-60 dias de vida. Escusado será dizer que contei as horas e os dias ate chegar o dia de ir buscar a ave. Desde do dia do nascimento que foi no dia 31-05-2017, fui recebendo fotos da evolução da minha nova companheira, e os meus sonhos a par da minha ansiedade iam aumentando a cada dia que passava, a cada foto que recebia do Cristobal.

 

A chegada da ave e amansamento

Açor em falcoaria
O objectivo do amansamento é uma ave bem ajustada

 

E finalmente chegou o grande dia (28-07-2017), lembro-me que nessa mesma noite pouco ou nada dormi com a ansiedade. Escolhi este dia, porque nos dois dias a seguir estava de folga do meu trabalho, e como neste primeiro dia dificilmente iria fazer algo com ela, a não ser deixa-la a descansar da viagem, pelo menos ate a noite, e como estava de folga nos dois dias seguintes, teria praticamente todo o tempo para começar o amansamento. A ave foi-me enviada pelo Cristobal por MRW, como confio muito nele, e a distancia que nos separa é considerável (cerca de 1000 km), preferi que me a enviasse por MRW ate Badajoz, que fica a cerca de 35 km da minha casa. Ainda o posto da MRW de Badajoz não estava aberto, já eu estava a porta da mesma a espera.

Depois de alguns minutos de espera e de burocracias normais, la seguimos de regresso a casa, com a minha companheira dentro da caixa de transporte, com o seu caparão, e protector de cauda provisório. Já na minha garagem, tirei a minha companheira da caixa, pesei-a de seguida, pesou 1308g, com um jejum de quase 48 horas. Como tinha que ir trabalhar, deixei a ave no arco com o caparão e protector de cauda provisório metidos,  dentro da minha garagem, com pouca luz (não fosse ela tirar o caparão), a garagem tem uma temperatura agradável para o Verão do Alentejo, ainda mais tratando-se de uma ave nórdica, teria que ter esse cuidado redobrado.

Só lhe voltaria a mexer ao fim do dia, agora imaginem o meu dia de trabalho, pois, so tinha a cabeça na fêmea de Açor, parecia um miúdo que tinha recebido um brinquedo muito desejado. Durante esse mesmo dia contei com a ajuda preciosa do meu amigo José Geadas, como vivemos na mesma aldeia, (alias, na mesma rua, só uma casa nos separa, em jeito de brincadeira dizemos que é a rua com mais mais falcoeiros por m2 em Portugal), ele ia dando uma “espreitadela” de tempo em tempo para ver se estava tudo bem.

Fêmea de açor com caparão

 

As duvidas surgiam durante o dia, o problema não estava que tipo de amansamento iria fazer, sempre gostei de uma “velada”, é das coisas que mais me dá prazer de fazer na Falcoaria a par da caça, a duvida era se iria tentar já com a companhia da cadela que pouco ou nada tinha tido contacto com outras aves, apenas a testei com uma ave e como a coisa não correu mal, decidi arriscar o primeiro dia da “velada” com a minha cadela.

Já depois do dia de trabalho, peguei na cadela, e lá fui eu para a minha primeira tentativa de amansamento, meto a cadela presa com a trela a uma distancia de segurança, fiz com que ficasse entretida, meti uma luz com pouca claridade, de seguida meti a ave na luva com uma metade de codorniz sem penas, e tirei o caparão.

A primeira reacção dela foi olhar a volta, tentar perceber onde estava e com quem estava, assim que ela detectou a minha cadela, nunca mais quis saber da minha presença. Durante uma hora e meia ali estivemos os três num silencio absoluto, com a minha a cadela portar-se de uma maneira incrível (nunca o esperei, porque quem a conhece sabe o quanto ela é mexida, a energia que ela consegue absorver a cada minuto que passa), a ave durante essa hora e meia, por vezes olhava para a codorniz sem penas, e eu pensava: “é agora!”, mas logo a seguir, ela voltava a focar aquilo que mais lhe interessava, a minha cadela.

Não se debateu uma única vez, o que me deixou contente, poderia ser um sinal que não iria ter muitos problemas em mete-la com a cadela, mas de seguida pensei: “bom!o melhor é tirar a cadela desta historia, e la mais para a frente introduzo a cadela”, e assim o fiz, meti o caparão e não tentei mais durante esse dia. Deixei a ave no arco com o caparão e deixei um pequeno radio ligado, para ela estar sempre a ouvir ruídos.

Já no outro dia, bem cedo, sozinho, sem a cadela, voltei a pegar na ave, pesei-a, tinha 1210g, coloquei outra codorniz sem penas na luva, tirei o caparão e depois de 10 minutos, finalmente ela começou a comer, ao mesmo tempo que ela ia comendo na luva, eu ia fazendo um som, o som do meu assobio, para ela ir associando aquele som a comida. Depois de comer a codorniz toda, voltei a meter-lhe o caparão, e deixei-a no arco durante umas horas, essas mesmas horas coincidem com o calor do dia, mas claro de uma em uma hora ia ver se estava tudo bem.

Inicio de uma equipa de caça

 

Já depois da hora de jantar, comecei a outra fase do amansamento, passear com ela na luva, de caparão metido, para ela ir ouvindo sons, de pessoas, carros, motas, cães, etc, optei por leva-la a uma esplanada, onde normalmente há muito barulhos, duas horas depois voltei a mete-la no seu arco, sempre de caparão metido, e deixava-a sempre com o radio ligado. No dia seguinte, tinha aumentado 10g, em relação ao peso do dia anterior, normalmente teria aumentado mais gramas depois de comer aquela codorniz, mas é normal que uma ave nesta fase do amansamento e depois de algumas horas em jejum e o passeio façam com que o seu metabolismo funcione de uma forma mais rápida.

Depois de pesa-la, decidi que so lhe iria voltar a dar de comer já no fim do dia, e desta vez seria uma comida menos gorda, decidi por pinto do dia, durante a manha desse dia aproveitei para a passear na luva, passar o máximo de tempo com ela na luva, mas sempre com o caparão metido, nesta fase é muito importante que ave se stress o menos possível com o que quer que seja, porque depois pode tornar-se num estimulo negativo no futuro, e nisso os Açores são exímios, eles “gravam” mais facilmente os estímulos negativos que os positivos. 

Já no fim do dia voltei, metia-a na luva com um pinto do dia, e assim que lhe tirei o caparão, ela começou a comer, escusado será dizer que ela comeu o pinto do dia em 5 segundos. Isso deixou-me motivado para o próximo dia, visto que ela já comia sem pensar duas vezes, e pouco se importava com a minha presença, decidi arriscar para o final do dia seguinte, tentar que ela comesse na rua pela primeira vez. Pesei-a na manha do dia seguinte, tinha perdido 30g em relação ao dia anterior, isto é 1190g, chegada a hora de comer, tirei-lhe o caparão na rua, e ela esteve cerca de 10 minutos a olhar a volta,e começou a comer umas 50g de carne de coelho bravo, comeu sem problemas e voltei a por-lhe o caparão.

No dia seguinte voltei a pesa-la e ela tinha mantido o peso do dia anterior, e desta vez queria arriscar em leva-la a uma esplanada a noite, com algumas pessoas, tentar que comesse algo na luva, e assim o fiz, mas falhei na minha previsão, tirei-lhe o caparão, mas ela não quis comer, ela debateu-se umas duas ou três vezes numa hora que ali estive, e isto até me deixou de uma certa forma animado, isto porque apesar de não ter comida na luva, para um Açor parental debater-se umas duas ou três vezes não me parecia um mau presságio para o que vinha ai, meti-lhe o caparão e casa.

Como não tinha comido no dia anterior, pensei que no próximo dia, com mais horas de jejum, iria comer na mesma esplanada e assim o fiz, pesei-a na manha do dia seguinte e tinha perdido 50 g, estava com  1120g, a noite depois de jantar, levei-a novamente a esplanada, tirei-lhe o caparão, voltou a observar tudo a volta, e começou a comer, e foi um alivio, porque tínhamos ultrapassado mais uma barreira, e desta vez, ate havia cães ali por perto e ela não se importou muito.

Durante a semana seguinte, fiz sempre o mesmo, levava-a a sítios públicos, passeava-a ao mesmo tempo ela ia comendo na luva, algo que durasse algum tempo, o chamado “roedor”, e foi nesta altura que comecei a introduzi-la ao rol, algo que não foi nada de difícil, como é normal em todas as aves, basta comerem uma ou duas vezes no rol e no outro dia já sabem o que é o rol (e de que maneira).

Tinha passado praticamente uma semana e meia da chegada dela a minha casa, e como ela tinha perdido praticamente todos os medos, comecei a usar cada vez menos o caparão durante o dia, e mudei o arco dela, para um banco americano, sempre ouvi dizer que para o amansamento é muito melhor o banco americano, porque uma das manias que ela ainda não tinha perdido, era abrir as asas quando eu me aproximava do arco onde ela estava, e com o banco americano isso mudou completamente, porque a ave esta mais alta, e então ela começou a tolerar completamente a minha aproximação dois ou três dias depois.

Atenção, não a meti logo no banco americano, porque não aconselho a ninguém que enquanto a ave em questão não estiver amansada o suficiente, o banco americano pode tornar-se perigoso. Isto porque, quando ave se debate, pode ficar pendurada, e não ter a força ou a inteligência de voltar para cima, e isso pode provocar a sua morte. O que eu fiz foi fazer um teste, mete-la no banco americano e fazer com que ela se debate-se duas ou três vezes e ela sempre teve a inteligência de voltar para cima.

Quando percebi que ela estava apta para começar a tentar os primeiros saltos a luva, já tinha passado umas duas semanas desde do dia que ela chegou a minha casa. E foi então que fiz as primeiras tentativas, dentro da minha garagem.

Tentei o primeiro salto a luva com o peso em 1130g, e não saltou. Tentei umas três ou quatro vezes durante o dia e ela por vezes ainda mostrava algum interesse, mas nada feito. Não insisti mais e voltei a tentar no dia seguinte com o peso em 1120g e, depois de duas tentativas  ela fez o primeiro salto a luva, a uma distancia de 30 cm, dois pintos do dia no papo e meti-a no banco novamente.

Fêmea de açor durante o treino
Voos no campo

 

No dia seguinte, com o mesmo peso do dia anterior, aumentei a distancia para 60 ou 70 cm e depois de duas ou três chamadas ela saltou a luva, mas desta vez com uma perna inteira traseira de um coelho bravo, e ao mesmo tempo que ela ia comendo ia para a rua com ela, aproveitava para manter o estimulo positivo, enquanto comia, via pessoas, carros, motas, etc.

Foi assim dia após dia, todos os dias ia aumentado a distancia, até que não tinha mais distancia possível dentro da minha garagem, chegou a hora de tentar voa-la com fiador na rua, fui para um local onde costumo iniciar os voos a luva com fiador em todas a minhas aves, num sitio que é uma espécie de um ringue, onde o fiador tem menos probabilidades de ficar preso em algo, que é sempre uma chatice e para alem disso, é um local onde passa pouca pessoas, o que poderia ser uma vantagem para o primeiro voo a luva com fiador na rua, o peso dela estava nas 1110g com 42 horas de fome, lembro-me que arrisquei logo com um pinto inteiro na luva a uma distancia de mais ou menos dois metros, e passados 3 ou 4 minutos ela veio a luva, um pouco assustada, voltei a experimentar a uma distancia de 3 metros com outro pinto e depois de tantas chamadas ela não veio, e não insisti mais.

Fui para a casa a pensar: “talvez já tenha cometido um erro, será que deveria ter dado papo cheio na primeira chamada e amanha voltar a tentar de uma distancia maior?”, no outro dia, voltei a tentar desta vez com 3 metros de distancia e passados 5 ou 6 minutos ela voou para a luva, e dei-lhe papo cheio com uma perna traseira de coelho bravo. Decidi que da próxima vez iria tentar de uma distancia maior, do tipo 6 ou 7 metros, mas desta vez com mais horas de fome, e passadas, 35 horas depois voltei a tentar, o peso estava novamente em 1100g, lembro-me que antes de a chamar a luva pensei: “vou meter a pata na poça, mas que se lixe”, aumentei para 10 metros com uma codorniz sem penas, chamei-a, e não tardou 10 segundos, la estava ela, na luva a comer a codorniz, e bem merecida!!

Açor finlandes no exterior
A fêmea de Açor durante o treino

 

E assim foi evoluindo, sempre com o peso entre as 1100g e as 1110g, lá íamos nos aumentado a distancia, de dia para dia. Admito que cheguei a fazer 80 metros com fiador e pensar: “para quê tanta distancia?”, e a medida que a resposta era mais rápida, comecei a aumentar as chamadas a luva que fazia diariamente, cheguei a fazer 10 chamadas com picadas a distancias de 50 ou 60 metros e terminava sempre com uma chamada ao rol a uma distancia superior aquela que a chamava a luva, onde lhe dava papo cheio. Admito que talvez tenha adiado, se calhar ate demais, o processo de a começar a voar sem fiador, mas queria jogar pelo o seguro.

Antes de começar a leva-la ao campo para introduzi-la a caça, pedi ao meu amigo Gonçalo Abreu, para me “armar” a ave, meter umas almeris novas, piós e um arnês para colocar o emissor, o Gonçalo é o artesão de toda as minhas aves, é do tipo, é só levar a ave e ele faz o resto. E como sempre, surpreendeu-me com as suas novas almeris, que são uma autentica obra de arte, das quais tive a honra de ter a minha ave como pioneira. Aqui fica o meu agradecimento especial para o Gonçalo.

 

Início na caça

Açor a Faisão @ Francisco Godinho

 

Cheguei a fase que mais me dá prazer na Falcoaria, a caça, nunca tive a “obsessão” por escapes para introduzir a minha ave a caça, pensei em fazer 2 ou 3 escapes e depois leva-la a caça e ver no que dava, e assim foi, fiz uns escapes com pombo e um faisão, nada de especial, admito que foi algo que fiz mais com o intuito de ter a certeza que se um dia por algum motivo ela não quisesse baixar de uma árvore ou algo do género, teria ali mais uma alternativa para a fazer baixar.

De salientar que estes processos todos, desde do amansamento até a introdução na caça foram feitos num Verão muito quente e seco, que tardou em findar anormalmente ate finais de Outubro, e isso dificultou-me um pouco a vida em todos os aspectos, refiro-me aos pesos dela, e ao comportamento da própria caça, como irão perceber mais a frente.

Não insisti mais em escapes, e passei a ir ao campo com ela, isto é, caçar. Não queria perder mais tempo com escapes, visto que vivo numa zona onde ainda há alguma densidade de caça, principalmente coelhos, decidi o que iria fazer era, leva-la a caçar numa boa zona de coelhos, e que com o tempo ela iria sair atrás de algum. 

Estava um pouco apreensivo, porque sempre ouvi dizer que os Açores (principalmente os nórdicos) tem uma “pancada” maior por a pena do que pelo pêlo, mas é aqui neste ponto que a zona onde vivo faz a diferença, ver 10 coelhos em 45 minutos para uma ave que se esta iniciar, não é a mesma coisa que ir ao campo pelas primeiras vezes e ver apenas 1 coelho numa manhã. La fomos nós, com o peso dela em 1100g, começaram a sair coelhos, e nos primeiros 2 ou 3, não saiu da luva, nunca tentei que saísse da luva atrás, queria deixa-la sair por si só, que tivesse o tal “click”!

E finalmente chegou o tal “click”, la foi ela atrás do seu primeiro coelho, meio desajeitada (como é normal), sem captura, tento mais umas 3 vezes e nada. Foi assim durante alguns dias, até que chegou o dia da sua primeira presa selvagem, dia 16 de Setembro, acompanhado por o meu pai (que é tão ou mais viciado que eu na caça). Um lance estranho, o coelho saiu um bocado longe, ela saiu a toda a velocidade da luva no meio de um olival velho com muita vegetação a mistura, admito que pensei que o lance não iria dar em nada, e é quando oiço o meu pai que estava a ver de outra perspectiva, dizer: “vai la! acho que ela apanhou o coelho”. Eu como não ouvi o “grito” do coelho como é normal quando são capturados, estranhei, aproximei-me e confirmei, o seu primeiro coelho!

Tinha o peso em 1100g, o calor que se fazia sentir, obrigava-me a ter muito cuidado com o peso. Papo cheio e la fui eu para casa todo orgulhoso! No dia 19 de Setembro fui novamente caçar com ela, com o peso em 1110g, desta vez so eu e ela, fui para um terreno já a pensar nas lebres, mas como o calor era tanto, dificilmente nos iríamos cruzar com uma lebre, com o calor as lebres estão praticamente todas dentro das vinhas, onde há muito arames, e isso não queria arriscar de maneira alguma, tínhamos acabado de começar a caminhar, toco num pequeno carrasco, sai um coelho a toda velocidade, a subir, ela sai da luva a toda a velocidade atrás do coelho e vai captura-lo dentro de um carrasco cheio de lenha, eu so percebi onde ela estava devido ao “grito” do coelho. Pensei: “Esta a começar apanhar o jeito!”, papo cheio e casa.

Açor com coelho
Nirvana com um coelho

 

No dia 22 de Setembro fui visitar um coto de caça na Salvada, perto de Beja, com mais 3 amigos, também eles Falcoeiros, passamos praticamente todo dia todo por lá, um dia de muito calor, onde visitamos o couto e chegamos a acordo com proprietário para caçar na época de caça até finais de Fevereiro.

No regresso para casa, acompanhado pelo José Geadas, o meu pai liga-me para o telemóvel e pergunta: “ainda estas perto de Moura?”, eu respondi: “tou a 5 km de Moura”, e o meu pai: “então passa aqui em Moura, que estou aqui a reparar uma maquina, e o senhor da maquina tem um couto de caça com muitos coelhos, e gostava de ver o pássaro a caçar”!

La fomos nos a um olival cheio de buracos de coelhos, não seria nada fácil, porque o calor que se fazia sentir, obrigava os coelhos todos a estarem dentro dos buracos, depois de 10 minutos de caminhada, sai um coelho a correr, um lance muito fácil que deu em captura, digo fácil porque num olival limpo, sem vegetação, comparativamente ao lances que ela estava habituada a fazer era um lance claramente muito mais fácil. Papo cheio e casa!

Depois desse dia comecei a pensar em juntar a cadela a esta historia, já tinha a ave metida a caçar, e ao mesmo tempo a cadela mostrava que estava claramente a ficar muito boa para a caça, e ai tenho que agradecer ao meu pai, que foi uma ajuda preciosa na introdução da minha cadela a caça, desde que a minha fêmea de Açor a casa, eu fiquei praticamente sem tempo para levar a cadela ao campo, e o meu pai é que a levava (o meu pai é a pessoa mais viciada em caça que eu conheço, e para alem disso tem uma experiência de quase 50 anos como caçador, ele é que me ensinou todos os comportamentos da caça, foi com ele que aprendi tudo o que sei).

Agora imaginem o meu pai a levar a cadela ao campo todos os dias, a zonas onde há caça, lembro-me que quando o meu pai ia levar a cadela a minha casa, comentava sempre o que tinha acontecido, do tipo: “hoje parou 3 coelhos!”, no outro dia: “hoje levantou 2 lebres”, isso deixava-me super motivado para juntar a cadela e o pássaro.

Tenho que explicar que neste tempo todo, devido ao calor, a minha ave esteve sempre na garagem dos meus pais e a minha cadela estava na minha casa, decidi so junta-los quando tivesse o pássaro metido na caça. Foi então que decidi mudar a minha ave para a minha casa, esperava que fosse mais complicado, porque a minha cadela é super eufórica, não consegue estar sossegada muito tempo. Na verdade, correu muito bem. Comecei a dar comida na luva com a cadela sempre presente, e notei que o pássaro não mostrava muito medo.

Foi então que decidi, que tinha que levá-los ao campo e tentar perceber ate que ponto a cadela e o pássaro se respeitavam e toleravam, fui para um campo onde havia poucas árvores, para não correr o risco de ela ir para uma árvore e não querer baixar da mesma devido a presença da cadela.

Lá fomos nos caminhando como se tivéssemos a caçar, ia reparando no comportamento do pássaro na luva e não me parecia nada assustada com este novo cenário, foi então que decidi fazer algo diferente, aproveitei que a cadela estava um pouco distante, coloquei o pássaro no chão, afastei-me uns 20 metros e chamei-a a luva e veio logo, sem problemas.

Foi então que decidi fazer outra coisa, meti-a numa das poucas árvores que havia ali, chamei a cadela para perto de mim, voltei a chama-la para a luva, e não tardou 5 segundos lá estava ela na luva. Continuei a fazer o mesmo, aumentado a distância, sempre com a cadela perto, e sempre a correr bem. Já tinha uma ideia para o final do teste, que era chamar o pássaro ao rol com uma codorniz com penas, deixa-la comer no chão e com a cadela ali ao lado, e assim foi, chamei-a e ela veio sem problemas, comeu a codorniz toda com a cadela ali deitada ao lado, como se já se conhecessem há muito tempo.

Confesso que me senti a pessoa mais sortuda do mundo, ter um Açor e um cão assim de uma forma tão simples, sem grandes alaridos, sem acidentes, é preciso ter mesmo muita sorte. Agora faltava aquilo que mais me interessava, caçar com os dois!

No dia 28 de Setembro, num dia de muito calor, já ao final da tarde, peguei na minha cadela e no pássaro, com o peso nas 1100g, e fui para uma zona muito boa de coelhos com a companhia do José Geadas. Lembro-me que não tardou 10/15 minutos, oiço o zé: “a cadela ta parada!!”, só podia ser um coelho, preparo o lance, o meu coração batia de uma forma louca, sai o coelho a toda a velocidade, Açor e cadela atrás do coelho.

Lembro-me de ver o pássaro passar por cima da cadela a toda a velocidade, um lance de 80 ou 90 metros, entre oliveiras e carrascos, eu e o Zé parados a ver aquilo, ouvimos o “grito” do coelho, começámos a correr com medo que a cadela não ia respeitar o pássaro com a presa, e felizmente correu as mil maravilhas, la estava a cadela parada a olhar para o pássaro e o coelho! Lembro-me que só sabia dizer ao Zé “realizei um dos meus sonhos na falcoaria, ter um cão a parar uma presa e eu com um Açor na luva, fazer um lance e capturar!”.

Açor com coelho
Nirvana com coelho

 

Papo cheio e la fomos nós para casa. A partir desse dia so já pensava em caçar as lebres, queria parar de caçar aos coelhos pelo menos por uns tempos, isto porque ter uma ave que só caça aos coelhos, depois introduzi-la as lebres poderia não ser fácil, as lebres dão muita luta quando são capturadas.  Lembro-me de ler num livro do Diego Pareja, que tinha sido feito um estudo dos vários animais que normalmente se defendem com o chamado coice e, a lebre, era um dos animais que mais força tinha no seu coice, em proporção ao tamanho (como é óbvio). 

Uma lebre pode ferir uma ave e até matá-la, agora imaginem uma ave que so ainda caçou coelhos, que pouca luta lhe dão quando são capturados, de repente começar a levar “porrada” de uma presa que nunca tinha visto, não é nada fácil, e pior é quando a primeira vez que a ave capture uma lebre, essa mesma lebre na captura tenha dado muita luta, e foi exactamente o que aconteceu a minha fêmea de açor, depois de andar a bater montado atrás de montado a procura de uma lebre, com um calor sufocante.

Lá consegui finalmente sacar a primeira lebre (e aqui um cão ajuda muito, e a minha cadela foi sempre uma preciosa ajuda), o meu pássaro sai a toda a velocidade atrás da lebre, 40 ou 50 metros agarra a lebre, começo a correr para ajudar, e a lebre consegue escapar, eu acho que foi por causa das unhas dela, não estavam nas melhores condições.

Depois deste lance vieram os tais dias de hesitação por parte do pássaro às lebres. Só tinha as recordações da primeira lebre que agarrou e que depois acabou por largar, então tive que ir “jogando” com o peso dela. Recordo que comecei a caçar as lebres com o mesmo peso com que estava a caçar aos coelhos, 1100/1110g, com o calor que ainda se fazia sentir em Outubro, tive que baixar mais o peso, a cada dia, lentamente, até chegar o dia de capturar a sua primeira lebre.

E esse dia chegou! No dia 23 de Outubro, fui para o campo com a convicção que se saísse uma lebre desta vez ela iria capturá-la, com o peso nas 1090g, e com quase 48 horas de fome e já com as unhas razoavelmente boas.  Lá fomos nós. Lembro-me que fartei-me de andar durante duas horas, e notei que cada vez que passava naquela zona a minha cadela apanhava um rasto de qualquer coisa, depois de la passar três vezes e a minha cadela ficar sempre mais excitada, pensei: “vou parar-me aqui e deixar a cadela caçar a vontade dela”. Não durou 10 segundos, a cadela consegue encontrar a lebre e faz levantá-la da sua cama. O pássaro sai a todo a velocidade acompanhada pela cadela, e consegue capturar e dominar a lebre nos primeiros 30 metros. Finalmente tinha capturado a sua primeira lebre.

 

A aspergillose

 

Como tinha capturado a sua primeira lebre, dias depois decidi ir fazer a primeira caçada as lebres no couto da Salvada, em Beja. Lembro-me que nessa noite o pássaro tinha inesperadamente perdido peso a mais, acabei por ir na mesma, e aquilo foi uma desgraça, saíram duas ou três lebres e ela simplesmente não se sentia forte, saía da luva atrás delas, mas do nada pousava no chão, coisa que não era normal nela, visto que estava musculada, e é aqui que na minha opinião a caça as lebres tem um dilema, depois de caçar a primeira lebre, uma ave já sabe o que é uma lebre, ela não estava forte o suficiente para caçar as lebres.

Desisti de procurar lebres, dei-lhe metade de uma codorniz, e no outro dia, tinha aumentado cerca de 15 gramas, voltei a levá-la ao campo, e consegui fazer um lance a uma lebre e meus amigos, nem parecia a mesma, saiu a toda a velocidade, nesse mesmo lance acabou por embater numa vedação, justo quando ia agarrar a lebre, felizmente não ficou ferida.

Estávamos no principio de Novembro, e queria tentar capturar a segunda lebre da época. Num desses dias, fui ao campo, e uma das vezes em que a chamei a luva, o pássaro vinha com a respiração diferente, mais ofegante, quando nada o justificava.

Achei aquilo estranho, e comecei a ligar a uns amigos, que talvez me pudessem ajudar a tentar perceber o que se passava, liguei para o Sebastien, uma Falcoeiro com uma enorme experiência, “pode ser aspergilose” disse ele. Então, aconselhou-me a entrar em contacto com o Emilio Ledo, cetreiro espanhol, que vive na zona de Mérida. Ele já tinha tido dois casos desses com os seus pássaros.

Então, entrei em contacto com o Emilio. Ele pediu-me que lhe enviasse videos depois da ave se debater ou algo do género. Depois do Emilio ver esses videos, recomendou-me que fosse ter com ele urgentemente a sua casa. Lá fui eu ate Mérida, onde ele com uma cordialidade impressionante me recebeu na sua casa, e confirmou aquilo que eu mais temia, era aspergilose!

Fiquei de rastos, pensei que ia perder a minha ave, sempre ouvi dizer que a aspergilose nas aves tem uma taxa brutal de mortalidade. Mas o Emilio foi a salvação da minha companheira. Ele tinha um medicamento raríssimo, muito difícil de encontrar (e muito caro), que tem como nome “ VORICONAZOL”.

Precisei de 3 comprimidos, cada um desses mesmos comprimidos tive partir em 14 bocados, acompanhados por um medicamento hepático, que se chama: “SILARINE”, que iria dar diariamente durante 40 dias. Normalmente o tratamento dura entre 30 a 40 a dias, eu optei por os 40 dias para jogar pelo seguro.

Nessa fase do tratamento, subi-lhe um pouco o peso, não demasiado, porque umas das coisas a evitar no tratamento é que a ave fique mais stressada, e se debata muitas vezes, e com o peso mais alto do que a conta isso podia surgir. E assim foi durante 40 dias, lembro-me que so comecei a notar melhorias na respiração entre os 15-20 dias do tratamento, a medida que os dias iam passando, eu estava cada vez mais esperançando que ela ia ficar bem. 

 

A caça a lebre

O tratamento acabou no dia 21 de Dezembro, já fazia frio, e o frio para os Açores nórdicos é uma maravilha. No dia 22 de Dezembro comecei a voá-la a luva no campo para ver como estava, e não me parecia nada debilitada. Então comecei a voa-la com 1140g, estão a ver a diferença? O frio muda tudo, o pássaro sentia-se muito mais forte, como é normal, so precisava de voltar a muscular um pouco mais e ir tentando ver a reacção dela na caça.

Admito que tinha um pouco de receio que ela e começasse a hesitar as lebres, porque ela já sabia o que era caçar lebres, mas teria que testar. Fui tentando, e os meus receios estavam correctos. Senti que ela não estava confiante. Cada vez que saía uma lebre, por vezes ia atrás dela com a toda a força, mas depois na fase de agarrar desistia. Outras vezes nem saía da luva, parecia que estava a seleccionar as lebres. Foi uma grande dor de cabeça. Ao mesmo tempo, não queria baixar mais o peso, para não correr riscos que o sistema imunitário não tivesse forte o suficiente para combater a aspergilose ou outro tipo de doenças.

Então decidi que só havia um caminho. Ir o máximo de vezes ao campo e tentar que ela perdesse esse medo. E assim foi. Admito que houve dias que vinha desanimado, sentia que ela estava bem, voava de luxo a luva, mas havia qualquer coisa nela que me deixava triste, mas não desisti!

No dia 1 de Janeiro, depois de um almoço de família, decidi pegar na minha equipa, e ir ao campo, com o peso nas 1140g. Comecei a bater terreno em busca de uma lebre, e ao fim de 15 minutos de caminhada, a minha cadela começa a latir dentro de um pequeno mato. A minha companheira saí, em voo da luva a toda a velocidade, em direcção ao latir da cadela. Eu não sabia o que era, (pensava que seria um coelho), mas por sim por não, comecei a correr para tentar perceber o que era, lembro-me de ver o pássaro a toda a velocidade pelo meio das estevas, paro para tentar perceber para que direcção tinham ido. Quando oiço um berrar de uma lebre, a mais 200 metros de distância, dentro de uma vinha.

 

Açor com lebre
Nirvana com uma lebre

 

Começo a correr em direcção ao som, e encontro a minha companheira com a lebre nas suas garras, e a minha cadela ali a minha espera. Fiquei super contente, senti que tinha a minha companheira de volta! A partir daqui, decidi que iria fazer algo diferente, aumentar o peso pouco a pouco, mas ir voá-la com mais horas de jejum, e ver no que dava.

No dia 8 de janeiro, pesei a minha companheira, estava com 1180g, e com 40 horas de jejum. Decidi ir ao campo com a minha equipa, e lá fomos nos, depois de caminhar durante 20 minutos, a minha cadela faz uma paragem lindíssima.

Saem duas lebres ao mesmo tempo, ela sai da luva a toda a velocidade, a cadela sai a correr atrás de uma lebre, e o pássaro atrás de outra. Na primeira tentativa de captura, ela falhou, e voltou a recaçar (sempre a subir). Vejo o pássaro a ganhar cada vez mais terreno à lebre, até os perder de vista. Começo a correr na direcção de onde os tinha deixado de ver, quando la chego, la estava a minha companheira mais uma vez com uma lebre nas suas garras! Foi um lance que me deixou especialmente satisfeito, porque neste lance o pássaro mostrou que estava a começar a ficar em forma. E sentia-se cada vez mais forte. Porque quando um pássaro recaça, é porque se sente forte.

No dia 21 de Janeiro, decidi mais uma vez ir ao campo com a minha equipa. Pesei o pássaro e estava com 1180g, e 30 horas de jejum. Lá fomos nós. Cheguei ao campo, e mal tinha começado a caminhar, a minha cadela levanta uma lebre muito perto de nós. O pássaro sai a toda a velocidade e captura-a. Foi a primeira lebre que precisou da minha ajuda para a dominar, esta não tinha sido capturada pela cabeça, como normalmente tinha feito nas anteriores. Papo cheio e fui para a casa a pensar que aqueles 5 ou 6 segundos de “luta” com a lebre podiam ter deixado a ave “abalada”.

Dois dias depois, voltei a tentar capturar outra lebre, com o peso nas 1180g, e lembro-me de sair uma lebre e ela saiu a toda a velocidade como normalmente fazia, e quando chegou a lebre, não ia com aquela vontade de agarrar, voltei a procurar outra lebre, e a mesma coisa. Pensei: “ levou porrada naquela lebre que capturou, mas no vou baixar o peso, vou andar neste peso, até voltares a deixar de ter “medo”.

E assim foi, passei essa a semana toda a insistir, as lebres saiam e ela voltava a fazer o mesmo, até que, num desses dias, decidi dar-lhe mais umas horas de jejum. O peso estava na mesma (nas 1180g) e nesse dia saiu uma lebre a uma grande distancia. Ela saiu a toda velocidade atrás da lebre e capturou-a muito longe de mim. Percebi que não a tinha dominado e começo a correr, mas, não tardou, a largar a lebre.

Fiquei chateado, pensei: esta lebre merecia ser tua, foste busca-la tão longe e eu feito estúpido não cheguei a tempo para te ajudar!”. Ao mesmo tempo aquilo poderia ter piorado no tema da confiança do pássaro. Isto porque, se ela largou a lebre, é porque o agarre tinha sido difícil. Mas não podia parar de tentar. Só insistindo é que ela ia acabar por perder o medo.

Nessa semana fui caçar para a Salvada com o meu amigo Pedro Afonso, um dia de muita chuva e algum vento. Não seria fácil encontrar uma lebre com aquele tempo, mas tínhamos que tentar. E lá fomos nós. Andámos a primeira hora e nada de lebres, até que a minha cadela levanta uma lebre longe, contra o vento e chover ao mesmo tempo, o pássaro sai a toda a velocidade e passa um alto para o outro lado atrás da lebre. Eu e o Pedro começamos a correr para tentarmos perceber para onde tinham ido. E nada! Nem pássaro, nem cadela, nem lebre.

Ligámos a telemetria e lá fomos nós a procura. Encontrámos o pássaro a uns bons 300 ou 400 metros de onde se tinha iniciado o lance, à entrada de um Pinheiral. Percebi não tinha a lebre com ela, então chamei-a a luva. Quando ela pousou na minha luva, percebi que tinha pêlo nas unhas. Fiquei logo chateado, porque o pássaro não merecia, depois de um lance daqueles, merecia a lebre!

Mais uma vez tinha levado porrada de certeza, e mais uma vez podia ter “ferido” a autoconfiança do pássaro. Então, decidi que iria mexer um pouco no peso, e baixei cerca de 10/15g. E lá fui no dia 4 de Fevereiro com a minha equipa ao campo. O pássaro pesava 1165g, uma manha muita fria e com muito vento, andei cerca de 30 ou 40 minutos e sai uma lebre que a minha cadela levanta, a uma distancia de 50 metros.

O pássaro sai a toda a velocidade, entra muito bem, a lebre finta-a. O pássaro nem chegou a pousar no chão, sobe uns 7 ou 8 metros na vertical e pica em direcção a lebre e captura-a! Corri! Mas estava muito bem dominada, finalmente tinha capturado outra lebre.

Açor com lebre
Nirvana com mais uma captura

 

Com o aproximar do tempo previsto para o nascimento do meu filho (no dia 8 de Fevereiro) decidi que iria caçar pela ultima vez na mesma época. Iria tentar caçar mais uma lebre. Saí para o campo num belo dia de sol, com muito frio.  Na verdade as condições ideais para um Açor nórdico (quanto mais frio, melhor é a performance do pássaro).

Nesse dia estava com 1165g. Depois de caminhar durante uns 10 minutos, a Irís faz uma linda paragem, pensei: “deve ser uma lebre”, mas não, era um coelho, sai o coelho a toda a velocidade, uma perseguição estonteante da fêmea de Açor, que acaba em captura. Como o meu objectivo era caçar mais uma lebre, ainda ponderei em fazer uma troca para tirar o coelho ao pássaro, mas percebi que não ia valer a pena.

Decidi então que este seria a ultima presa da época para minha ave, papo cheio e fomos para casa. E agora era esperar 6 enormes meses, ate a próxima época!