Falcoeiros e a conservação

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A história da falcoaria anda a par com a história da proteção e conservação das aves de presa a nível mundial.

Ninho artificial para Falcão Sacre. Foto de falcons.co.uk


HISTÓRIA

Hoje esta relação é ainda mais importante e a conservação das aves de presa é reconhecida como sendo um dos pilares que fundamentam as ações das associações de falcoaria a nível mundial (entre elas a International Association for Falconry and the Conservation of Birds of Prey – IAF). A Associação Portuguesa de Falcoaria reconhece a importância desta temática e subscreve a preocupação e os esforços a realizar neste âmbito.

Acredita-se que os primeiros esforços de proteção das aves de presa se podem atribuir ao Imperador Federico II de Hohenstaufen, Imperador Romano-Germânico. Este publicou o seu tratado de falcoaria: De Arte Venandi cum Avibus (A arte de caçar com aves), onde eram feitas as primeiras referências sobre a necessidade de proteger estas aves de perseguição injustificada. 

Também a Rainha Eleonor D’Arborea, rainha da Sicília, estabeleceu que açores e falcões deveriam ser protegidos. A sua devoção a estas aves era tanta que fez com que o seu nome fosse mais tarde atribuído ao Falcão da Rainha (Falco eleonorae). Nessa mesma época, surgem na Europa central leis, às quais era atribuído o nome de “falcatio”. Estas protegiam os ninhos dos falcões e as árvores onde estes se encontravam. As comunidades locais estavam assim, compelidas a protege-los sob risco de severas penas. Muitos outros países possuíam legislação semelhante nesse período. Em Portugal, em 1253, viria a ser publicada a Lei da Almotaçataria, onde se protegiam algumas aves de presa, proibindo que fossem mortas ou que fossem destruídos os seus ninhos.

Aos falcoeiros pode ser também atribuído o surgimento das primeiras práticas de anilhagem científica. A anilhagem regular por ornitólogo terá tido início no final do século XIX, mas no seu início o Loo Hawking Club (na Holanda) já havia estabelecido a prática de libertar as garças capturadas com falcões com uma pequena anilha de metal onde era inscrita a data e local da captura. As recapturas em anos subsequentes eram assinaladas.


CASOS DE SUCESSO

Os falcoeiros foram também responsáveis por casos de sucesso ao nível da recuperação de populações de aves que se encontravam em extinção ou muito próximo desta.

No século XIX o Açor (Accipiter gentils) desapareceu da Grã-Bretanha devido à desflorestação e a uma perseguição marcada. O ressurgimento desta espécie é atribuído a falcoeiros que realizaram a sua reintrodução com indivíduos originários da Europa Central.

Em 1960 os falcoeiros começaram a perceber que o número de Falcões peregrinos (Falco peregrinus) existentes nos EUA tinha sofrido uma notável redução, em especial na costa Este do país. Veio depois a comprovar-se que esta diminuição se devia à acumulação de pesticidas no organismo das aves reprodutoras (ao longo da cadeia alimentar). Este fenómeno acabava por enfraquecer as cascas dos ovos e fazia com que se partissem durante o período de incubação. Para dar resposta a esta situação o falcoeiro e biólogo Professor Tom Cade reuniu uma equipa de académicos (todos falcoeiros) criando o “The Peregrine Fund”. Usando aves e técnicas de falcoaria desenvolveu a reprodução em cativeiro de forma a permitir que números elevados de aves fossem criadas e devolvidas à natureza. Este programa representa ainda hoje um dos maiores sucessos alcançados no âmbito da recuperação de uma espécie ameaçada durante o século XX.

Um pouco mais tarde, em 1972 Morlan Nelson, um falcoeiro apaixonado pelas Águias-reais (Aquila chrysaetos) persuadiu a companhia de eletricidade do Idaho a realizar alterações significativas ao desenho de construção dos postes de condução elétrica. Usando águias-reais treinadas e postes falsos simulou e testou vários modelos de construção dos postes de forma obviar o elevadíssimo número de mortes de águia por electrocussão. Em memória do seu trabalho é hoje atribuído o Morley Nelson Award.

Uma águia real em torre electrica. Foto http://shearwaterjourneys.blogspot.pt/

 

Um outro caso ocorre em 1985. Nesse ano a população do Milhafre real (Milvus milvus) estava reduzida a cerca de 25 casais no País de Gales. A produtividade dos casais era baixa e muitos ninhos eram pilhados para coleção de ovos. Por essa razão foi implementado um plano nacional de recuperação da espécie com a participação destacada de falcoeiros. Em 1987 e com a, foram reintroduzidos 53 milhafres reais no País de Gales. A análise das aves existentes permitiu compreender que o problema da produtividade destas aves se devia à pouca disponibilidade de alimento existente e por esta razão foram criados pontos de alimentação. Hoje, o milhafre real é uma espécie comum no País de Gales


ATUALMENTE

Existem numerosos projetos de conservação a nível mundial que contam com a liderança, participação ou técnicas desenvolvidas por falcoeiros. O The Peregrine Fund continua a liderar esforços em todo o mundo nas ações de conservação de habitats e populações de aves de presa um pouco por todo o planeta. 

O Clube de Falcoaria Alemão e a Sociedade de Falcoaria Polaca estão a trabalhar com a população de falcões peregrinos que nidifica em árvores – a mais ameaçada na Europa. Em 2012 foi encontrado o primeiro peregrino a nidificar numa árvore que se conhece desde há várias gerações.

Para dar resposta aos problemas de electrocução a IAF lançou uma campanha em 2012 para a criação de uma base de dados de aves de presa electrocutadas com o intuito de pressionar as companhias eléctricas a contribuir para a mitigação dos problemas causados por estruturas perigosas.

No Médio Oriente estão a ser implementados vários programas ligados à conservação sob liderança de falcoeiros. Por exemplo, em 2010 teve início o Projecto Sacre da Mongólia no âmbito do qual já foram erigidos mais de 5000 ninhos artificiais para o Falcão Sacre (Falco cherrug) para ajudar à reprodução desta espécie no seu habitat natural;

The Mongolian Artificial Nest Project

Também no médio oriente foi desenvolvido um sistema de Passaporte para falcões para diminuir o tráfico de aves usadas ilegalmente na falcoaria árabe. O Abu Dhabi Falcon Hospital e o Dubai Falcon Hospital constituem-se como os maiores hospitais do mundo especializados em aves de presa. O projecto de mapeamento do genoma do Falcão peregrino e Sacre poderá fornecer uma contribuição de imenso valor para a manutenção de populações selvagens saudáveis.

Os falcoeiros vão continuar a colaborar e liderar os esforços de conservação das aves de presa no futuro!

Conteúdos e fotos adaptados de: www.IAF.org