Estase de papo (papo azedo) em aves de falcoaria

Neste artigo o Médico Veterinário – Helder Fernandes fala-nos sobre a Estase de papo (vulgarmente conhecida como “papo azedo”) e sobre como proceder nestes casos. Este protocolo é para ser usado em situações extremas, em que a ausência de um veterinário, o local onde se encontra a ave e a urgência da situação, aconselha a procedimentos que visam estabilizar a rapina para que seja possível efectuar posteriormente uma intervenção em clínica ou hospital veterinário.

A estase do papo acontece num processo de paragem digestiva que pode ter variadíssimas origens, as quais, devido ao seu grande número e especificidade as retira deste texto que se quer prático e de apoio ao cetreiro que no campo, se vê confrontado com tal situação.

A estase do papo, permanência de conteúdo alimentar no papo, para alem de um ciclo digestivo, provoca um processo de intoxicação fruto da absorção de toxinas provenientes da decomposição dos alimentos que se efectuam num papo que sem motilidade e que com a temperatura do corpo da ave sofre proliferação bacteriana de estirpes agressivas. A ave fica prostrada com o papo volumoso e um cheiro fétido que exala do bico. As causas de papo azedo estão normalmente ligadas ao maneio alimentar e menos vezes a origens traumáticas.

O objectivo primeiro do cetreiro é esvaziar o papo, logo a seguir impedir a proliferação bacteriana e por fim hidratar.

O termo “rapina” e “ave” vai ser aplicado só a aves de presa diurnas. Este protocolo é só para diurnas. Mochos corujas e similares estão fora.

O primeiro passo é sempre o recurso a um veterinário.
Só na impossibilidade de termos essa hipótese é que abordaremos a situação do seguinte modo.

Este protocolo só se aplica a uma ave que ainda tem força e apresenta uma postura normal da espécie. Ou seja consegue manter-se no arco ou banco.

Temos então 3 fases:

  1. Remover o conteúdo.
  2. Parar proliferação bacteriana ( o mais comum em situações de campo) no papo.
  3.  Hidratar

Vamos então ponto por ponto

 

REMOVER O CONTEÚDO

A técnica será a de “ordenhar” o papo caudo-cranialmente, para que o conteúdo nos chegue ao bico da ave e possa ser removido.

  1. Saber o que a rapina comeu: Interessa saber se no papo existem ossos com superfícies cortantes com origem na sua própria estrutura ou fruto de fracturas com origem no acto de alimentar. Ossos pontiagudos, cortantes ou fracturados terão que ser removidos obrigatoriamente por veterinário, sob pena de se produzirem rupturas no papo, normalmente recorrendo a cirurgia. Este protocolo não se aplica a conteúdos de ossos com arestas. Secundariamente saber se temos pelo ou pena.

  2. A rapina é posicionada sempre erecta e cabeça levantada, segura por alguém experiente que sozinho imobiliza pernas e asas.

  3. Aspirar todo o líquido que esteja no papo com um conjunto de seringa e tubo flexível proveniente de um sistema de soro.

  4. Iniciar de um modo suave utilizando, o polegar e indicador, a subida do conteúdo do papo pelo esófago para aproximar o alimento do fundo da boca. Nesta operação o bico deve estar aberto. O alimento é visualizado e rapidamente removido. Para a remoção podemos utilizar a seringa com o tubo e basta encostar o tubo no alimento e exercer alguma sucção ao mesmo tempo que extraímos o alimento, pois este devido à pressão negativa vem preso ao tubo. Ou uma pinça com a qual extraímos a carne. Não viramos de modo algum a ave de cabeça para baixo esperando que ela expulse o conteúdo. Nós é que o removemos.

  5. Repetimos todo o processo até termos esvaziado completamente o papo. Pode haver necessidade de alternar com a sucção de líquidos. È importante que não fique conteúdo alimentar no papo.

  6. No campo saltamos o ponto da lavagem do papo (que se faz em ambiente de clínica ou hospital). Só alguém muito experiente e com um bom ajudante a segurar a ave consegue executar uma lavagem de papo no campo, com a ave “acordada” e com a traqueia aberta.

  7. Este ponto seria o da hidratação da ave por injecção subcutânea (estamos no campo) e mais uma vez o contacto com o nosso veterinário nos pode guiar nesta opção, ou podemos optar por hidratar por via oral. Em muitos casos hidratar por uma via mais agressiva é obrigatório, o que obriga a instalações e equipamento específico.

 

PARAR A PROLIFERAÇÃO BACTERIANA

  1. Introdução no papo de um antibiótico de largo espectro com a seringa e o tubo. (ligar ao nosso veterinário assistente e indagar acerca de um principio activo adequado e duração do tratamento). Em situações menos comuns os microrganismos podem não ser bactérias sendo pois posteriormente a medicação ajustada pelo veterinário se necessário.

 

HIDRATAR VIA ORAL

  1. Duas horas depois introduzir no papo soro glicosado a 5%, cujo volume terá de estar de acordo com a espécie da ave de. (Ex. 6 a 8 ml para um macho de Harris). Neste momento é importante que NÃO retirar o tubo do papo ainda com liquido a sair pois podemos estimular a regurgitação e provocar uma pneumonia por aspiração.

  2. Conseguimos deste modo parar a produção de toxinas e a continuada intoxicação da ave. Conseguimos 4 preciosas horas para chegarmos ao nosso veterinário que irá complementar a terapêutica e garantir que passados alguns dias a ave voa normalmente.

  3. Desde que a ave tenha absorvido o que lhe foi introduzido no papo podemos repetir o mesmo volume dado anteriormente.

 

DICAS

O tubo usado para acoplar à seringa deve ser sempre maior 10 cm, que a distância do fim do papo à ponta do bico.

O papo é muito fino pelo que devemos acompanhar a evolução da ponta do tubo dentro do papo com a mão esquerda (se formos dextros).

Quando se utiliza seringa acoplada a um tubo teremos que ter em atenção o volume de líquido que vai ocupar o espaço morto do tubo. Devemos por isso encher a seringa com um volume superior ao necessário e já com o tubo montado. Depois basta expulsar o ar e empurrar o êmbolo (atenção às seringas que podem ser excêntricas ou concêntricas) até á medida necessária a administrar, expulsando o conteúdo a mais.

O tubo deve ficar com meio centímetro vazio para evitar que ao sondarmos a ave possamos introduzir medicamentos na traqueia.

Devemos ter sempre uma compressa pronta pois se for necessário limpar algum conteúdo rapidamente no interior do bico a mesma tem que estar disponível de imediato.

Imagem: Abu Dhabi Falcon Hospital