História da falcoaria

Conheça aqui um pouco da história da falcoaria no Mundo e em Portugal.

A arte da Falcoaria tem como mais recuado testemunho iconográfico um baixo relevo representando um cetreiro empunhando uma ave de presa, encontrado na Mesopotâmia, nas ruínas de Korsabad. Este achado permite datar a pratica a Cetraria cerca de 1400 anos a.c. Uma série de elementos, pode deduzir-se que a Cetraria terá tido o seu início cerca de 10 mil a 5 mil anos AC, em plena época neolítica.

Fotos © IAF.org

Terão sido os Citas, que, além de contar com a glória da domesticação do cavalo, iriam primeiro estabelecer esta livre aliança entre Homens e as aves de presa. Neste tempo seria difícil para o Homem capturar as aves que habitavam a imensidão das estepes, nomeadamente a cobiçada abetarda-hubara. Idênticas dificuldades tinham os falcões selvagens: ao sobrevoarem os territórios onde as hubaras se encontravam, estas mimetizavam-se com o solo, passando despercebidas ou não permitindo ao falcão possibilidades de ataque. E daí o jogo: os homens avançavam em busca das presas escondidas gritando para dar sinal aos falcões. Os falcões selvagens sobrevoavam os homens sabendo que seria levantada caça. As abetardas, apesar do receio do falcão em voo, levantarem à aproximação dos caçadores. O falcão, atento, desceria do alto como um dardo vivo, derrubando mortalmente uma destas presas.

Os homens sabiam esperar que o falcão saboreasse a sua refeição e abandona-se a sua refeição. Depois o homem poderia então apropriar-se da quase totalidade da presa. Este seria o princípio básico da arte da caça de Cetraria que seria depois respeitado pelos cetreiros de todos os tempos: o mútuo entendimento e a livre colaboração entre “o mais poderoso caçador da terra – o homem – e o mais perfeito caçador do ar – o falcão”.

Fotos © IAF.org

Daqui em diante a arte da Cetraria foi-se requintando. Desde o uso da luva, ao “rol” e do “caparão”. Começaram a capturar-se presas que as aves de presa não capturavam de forma natural. Da região outrora habitada pelos Citas – a oeste das montanhas Altai, entre os rios Ural e Irtich e a norte do mar Arai – a Cetraria cresceu para o Sul; para o Oriente (onde chegou até à China e ao Japão, já nos princípios da era cristã); para o Ocidente, com as tribos germânicas. É curioso verificar-se que aquela zona é hoje habitada por Kirghizes (cavaleiros nómadas de origem mongólica) continuam, ainda hoje, a caçar com aves de presa, sobretudo águias-reais.

A Cetraria viria a atingir o mais alto esplendor e perfeição na Europa. Os vestígios da sua presença são inúmeros: a primeira cruzada ocorreu nos anos de 1096 a 1099 e no entanto já anteriormente aos Merovingios, consequentemente antes de 448, aqui se caçava com aves de presa;no século VI, além da nobreza eram muito os membros do clero que apaixonadamente se entregavam a esta modalidade: os concílios de 506, de 517 e de 518 proibiram esta prática aos prelados; esta interdição veio a ser confirmada pelo imperador Carlos Magno, nos Capitulares, no primeiro dos quais, em 800, se legislava sobre a proteção das aves próprias para a Cetraria.

Fotos © IAF.org

As Cruzadas marcam um avanço decisivo na conquista das maiores subtilezas desta arte. Da Terra Santa, com os cavaleiros da primeira cruzada, vieram os segredos do uso do “rol” e do “caparão”, já utilizados pelos árabes, e sem os quais as aves própria para o alto voo – os falcões – não poderiam ser utilizadas na sua forma mais espetacular – o verdadeiro lance de “altanaria”.

Frederico II de Hohenstaufen, rei da Sicília e chefe do Sacro Império Romano-Germânico veio trazer à Falcoaria Europeia um enorme progresso. Praticante apaixonado, foi também o autor do famoso tratado “De Arte Venandi Cum Avibus“, livro notável escrito no seu Castel dei Monte. Frederico II trouxe à Europa muitos dos melhores falcoeiros árabes da Síria e da Terra Santa que aqui introduziram técnicas que permitiram à Cetraria europeia evoluir ao ponto de vir a ser a mais perfeita e de mais requintada. Nesta época falcões e açores tornam-se bens inalienáveis, como as espadas para os cavaleiros.

No que toca à dimensão importa referir que foi o Imperador Mongol Gengis-Kan a possuir a maior Falcoaria do mundo, com 5 mil aves de presa, de variadas espécies. Estas encontravam-se a cargo de centenas de cetreiros.

Na Península Ibérica  a Cetraria floresceu. Pensa-se que terá chegado a estas paragens com os visigodos, pelo norte, e depois com os árabes, pelo sul. As primeiras notícias escritas da sua existência, aquém Pirenéus, surgem-nos no século IX, com os bispos Severino e Ariúlfo, refugiados nas Astúrias, mencionando as suas açoreiras, o mesmo sucedendo com Ordonho I ao confirmar o testamento de Afonso, o Casto, em 897. E é até curioso como através dos antigos poemas peninsulares, dos velhos romanceiros e cantares medievais, se pode notar a evolução desta arte. Primeiro, como inseparáveis companheiros dos cavaleiros, pertence aos açores e somente mais tarde surgem com maior evidência os falcões.

Fotos © IAF.org

O apogeu da Cetraria europeia foi alcançado nos séculos XIV a XVII. A decadência vem a verificar-se, inicialmente, com o aperfeiçoamento das armas de fogo e posteriormente com as modificações sociais resultantes da Revolução Francesa. Contudo, não se chegou nunca ao aniquilamento total: um que outro cetreiro, um que outro agrupamento, mantiveram na Europa a chama viva do fogo antigo. Sobretudo na Holanda e no Reino Unido.

Em Portugal

Em Portugal1 a cetraria está presente desde o início da primeira Dinastia . O período de maior esplendor desta actividade no nosso país ocorre durante o reinado do rei D. Fernando, século XIV (1367–1383). Neste período é de realçar o “Livro de Falcoaria” de Pêro Menino, encomenda do próprio rei que tratava de questões relacionadas com a saúde das aves de presa. O original do livro de Pêro Menino perdeu-se, existindo apenas cópias do século XVII, entre as quais a mais fidedigna está hoje guardada na biblioteca nacional.

Com a perda da independência para Castela, no século XVI a actividade deixou o seu esplendor em Portugal e foi mantida por poucos. No entanto é durante esse período que chega a publicação o mais famoso tratado da falcoaria em Portugal – Arte da Caça de Altaneria, de Diogo Fernandes Ferreira, que foi publicado em Lisboa, em 1616. Esta é uma obra que trata detalhadamente dos conhecimentos à época relativos à cetraria é hoje considerada um ex-libris da literatura seiscentista, um testemunho das tradições à época. O autor teria setenta anos quando o seu livro foi publicado.

Durante o século XVIII e após a restauração da independência e devido às descobertas realizadas no Brasil, a casa real Portuguesa retoma a prática da falcoaria com grande entusiasmo. Neste período a falcoaria da casa real portuguesa contava com instalações próprias na “Real Falcoaria de Salvaterra de Magos”. Estas rivalizavam com o que melhor se fazia nesta arte a nível europeu e contavam com a direcção de mestres oriundos dos Países Baixos e que reputavam como os melhores da Europa.

O apogeu da Cetraria europeia, o maior refinamento da arte, foi alcançado nos séculos XIV a XVII. A decadência vem a verificar-se, inicialmente, com o aperfeiçoamento das armas de fogo e posteriormente com as modificações sociais resultantes da Revolução Francesa. Contudo, não se chegou nunca ao aniquilamento total: um que outro cetreiro, um que outro agrupamento, mantiveram na Europa a chama viva do fogo antigo. Sobretudo na Holanda e no Reino Unido.

Neste período muitas aves vieram do estrangeiro como oferta ao rei, entre eles (em 1764) os mais belos Gerifaltes (Falco rusticolus) da Islândia, prenda do monteiro-mor da Dinamarca. Só em 1765 chegaram a Portugal sessenta falcões, que foram treinados e mantidos na falcoaria real de salvaterra de magos. No início do século XIX, com a família real portuguesa ausente no brasil, são extintos os cargos relacionados com a administração e a falcoaria real cai em esquecimento.

Até ao século XX foi praticada apenas por um punhado de entusiastas que mais tarde viriam a formar a Associação Portuguesa de Falcoaria (APF) e de onde se destacam Nuno de Sepúlveda Velloso, Natália Correia Guedes, Alfredo Baptista Coelho e José Albano Veloso Coelho. Para além disso,  é justo destacar-se o do grande pintor – e matemático, astrónomo, columbófilo e atirador à pistola que foi Constantino Fernandes, falecido em 1920.

Nuno de Sepulveda Velloso

Nuno de Sepúlveda Velloso – Pioneiro da falcoaria em Portugal

 

1: Crespo, Carlos – A Arte da Falcoaria. Edicões Inapa, 1999

Fotos e mais sobre a história da falcoaria em: www.iaf.org