Águia Real

Aves de presa

Estes animais  são o grandes actores desta prática e apaixonam os falcoeiros desde sempre.

As  aves de presa mais utilizadas em falcoaria correspondem às espécies com melhores características para a caça.

Para os falcoeiros as suas aves de presa são muito importantes e o seu bem-estar é uma prioridade máxima. 

Vamos abordar alguns temas importantes:

  1. Classificação científica (básica)
  2. Classificação em falcoaria
  3. Aves de alto-voo
  4. Aves de baixo-voo
  5. Alimentação
  6. Manter o bem-estar das aves
  7. Sobre a compra/aquisição de aves
  8. Encontrou uma ave de presa?
  9. Conclusão

 

1. Classificação científica (básica)

As aves de presa (ou aves de rapina) constituem um conjunto de aves que caçam ou se alimentam de outros animais. Por essa razão, têm características específicas que lhes permitem sobreviver desta forma. Bico em forma de gancho, patas e garras fortes, excelente visão e capacidade de voo, são características partilhadas por um grande número destas aves.

Algumas espécies apresentam comportamento predatório mais activo e outras, ocupam um nicho ecológico diferente, alimentando-se, por exemplo, de animais mortos.

Na verdade, apesar de muitas espécies possuírem característica semelhantes, as aves de presa, não se podem considerar como um grupo único de aves.

Na verdade, cientificamente, as aves de presa pertencem a várias ordens diferentes, como por exemplo:

  • Accipitriformes (águias, açores, gaviões a abutres do velho continente)
  • Cathartiformes (abutres do novo continente)
  • Falconiformes (falcões e caracarás) 
  • Strigiformes (corujas).
Ordens de aves de presa | Esquerda em cima: Accipitriformes; Direita em cima: Cathartiformes; Esquerda em baixo: Falconiformes; Direita em baixo: Strigiformes

 

Dentro destas ordens podemos encontrar um grande número de famílias,  géneros e espécies que representam diferenças significativas. Por essa razão, espécies aparentemente semelhantes podem, de facto ter comportamentos, hábitos ou necessidades bastante diferentes.

Quando lida com qualquer espécie, o falcoeiro deve conhecer e estar atento às suas características e necessidades básicas. 

 

2. Classificação em falcoaria

Geralmente, os falcoeiros classificam as aves de presa segundo parâmetros próprios (aqui abordamos apenas alguns) que não reflectem apenas a classificação cientifica mas, também, as características, adaptação e capacidades das aves nesta prática. 

Desta forma, classificamos as aves de presa quanto: 

Tipo de lance/caça que fazem normalmente em falcoaria: 

  • As aves de alto-voo são aves de rapina que caçam usando a altura e velocidade do seu voo, geralmente usam o voo picado de forma a tentar capturar as suas presas (geralmente falcões); 
  • As aves e baixo-voo são aves de rapina que procuram caçar usando a velocidade, a capacidade de manobra e que voam geralmente perto do solo (por exemplo açores, gaviões, búteos, etc).

Dimorfismo sexual: Na maioria das espécies de aves de presa existe uma diferença de tamanho substancial entre a fêmea (maior e mais poderosa) e macho (menor e mais ágil).  Assim são dados nomes diferentes a machos e fêmeas:

  • A fêmea recebe o nome clássico de Prima (por ser geralmente a primeira escolha do falcoeiros);
  • Ao macho damos o nome de Tercó (por ter geralmente menos 1/3 do tamanho do Prima).

É importante notar que, na nomenclatura clássica da falcoaria, as aves são mencionadas no masculino, mesmo que tratando-se de uma fêmea (o Prima).

Idade: As aves de presa mudam, naturalmente, as suas penas uma vez por ano. Deste modo, os falcoeiros referem-se à idade da ave pelo número de mudas efectuadas. Por essa razão, é frequente ouvir: “tal ave tem tantas mudas” para fazer referência à idade da ave.

O termo entremudado é atribuído aos indivíduos que somente realizaram a primeira muda, conservando ainda, por conseguinte, algumas das penas de juvenil.

 

3. As aves de alto-voo/altanaria

Gerifalte (Falco rusticolus): É uma espécie de ave de rapina da tundra árctica. Existem várias sub-espécies e plumagens que podem oscilar do cinzento escuro ao branco puro. Na falcoaria antiga Portuguesa aqueles que eram considerado mais belos eram os “letrados”, e recebiam este nome por terem a plumagem branca com pequenos pontos negros, como pequenas letras.

Atinge os 2 kg de peso. Têm a faculdade de poder subir até ao alto em voo de caça , quase na vertical. Na Idade Média eram considerados autênticas jóias e ainda hoje são aves extremamente caras pela sua raridade em cativeiro e procura. Necessitam de grandes espaços abertos para caçar. Não são recomendados para principiantes.   

 

Sacre  (Falco cherrug)É o falcão da falcoaria árabe por excelência. Excelente caçador em perseguição, tenaz, resistente e corajoso. São os maiores falcões em tamanho depois do gerifalte e são aves rústicas que habitam zonas desérticas.  

 

Falcão peregrino (Falco peregrinus): Considerado o príncipe das aves de falcoaria. O Falcão peregrino é a ave de alto-voo, por excelência. Existem várias subespécies contando cada uma delas com características específicas ( além disso recebem nomes também específicos em falcoaria):

  • O Nebri é a subespécie do norte da Europa, considerada o protótipo da raça. O adulto, tem 1 kg a 1,300 kg de peso. O termo Nebri era usual na península durante a Idade Média. É universalmente designado por Peregrino devido ao carácter nómada das suas peregrinações, sobretudo na fase adolescente. 
  •  O Bafari é a subespécie mediterrânea do falcão-peregrino. De 500 g a 1 kg de peso (mínimo para “terçós”, máximo para “primas”). De estrutura mais curta e compacta que o Nebri. É o Peregrino residente na Península Ibérica. Também denominado Bahari (palavra arábica que, para os árabes do norte de África, significava marinho e talvez nortenho, o que estaria perfeitamente certo em relação à nossa península).
  • Existem outras subespécies de Peregrinos noutras regiões do globo além das aqui mencionadas também usadas em falcoaria.

Caçam exclusivamente outras aves em voo. Ave para falcoeiros com alguma experiência.

 

Lanário (Falco biarmicus): Falcão tranquilo e calmo. Geralmente considerado uma boa opção para os iniciados ainda que contando com uma capacidade de caça inferior ao peregrino. Pesos entre os 500gr e os 800grs.

 

Aplomado (Falco femoralis): Falcão corajoso e veloz, especialista na caça de presas em voo directo, junto ao solo, como se tratasse de uma ave de baixo voo. Especialmente aptos para a caça a codorniz e perdiz. Pesos oscilam entre os 250g para os machos e 0s 450 para fêmeas. Considerado, por alguns autores, o mítico Aleto, referido por vários tratados da falcoaria medieval europeia (onde terá chegado trazido por navegadores da América do Sul). 

 

Esmerilhão (Falco columbarius): Pequeno falcão com o peso de aproximadamente 200g. É muitíssimo valente e veloz. Ideal para a caça de codornizes em voo directo. Na Europa foi usado na caça à Cotovia. Em estado selvagem caça apenas aves. Ave sensível e não recomendada a principiantes. A sua nidificação ocorre na Europa do Norte e Ásia. 

 

4. As aves de baixo-voo

Águia-real (Aquila chrysaetusApesar da majestade e altivez do seu porte e da grandeza da sua envergadura era considerada uma ave pouco capaz na Europa medieval. Naquela época consideravam as águias como lentas, pesadas e incapazes dos voos rápidos e ágeis dos falcões e açores. Na actualidade, os modernos falcoeiros europeus tem-nas utilizado, com êxito, na caça às raposas, lebres e corços.

 

Búteo de Harris (Parabuteo unicinctus) Habita os terrenos desérticos do México e sul dos Estados Unidos. De tamanho e leque de caça semelhante ao do Açor. A sua grande sociabilidade faz dela a ave mais popular entre os adeptos da falcoaria actual, tendo conquistado adeptos que não poderiam abraçar esta arte com as espécies tradicionais.

 

Açor (Accipiter gentilis): É a ave de presa mais usada em baixo-voo. Os Açores caçam partindo em perseguição directa desde o punho. As suas perseguições são rápidas e fulgurantes. Podem caçar em qualquer género de terreno, em planície como em montanha, em terreno limpo ou por entre a árvores. Tanto caça mamífero (coelho, lebre), como outras aves (perdiz, pato, faisão). Devido à cor dos seus olhos, de íris amarelada (que com a idade pode chegar ao vermelho quase rubi), os antigos gregos denominavam esta ave por “asteria” – estrela, brilhante, luminoso. Pensa-se que esta designação viria a  conduzir ao termo latino “astur” (astro?), o castelhano “astor” (antigo) e “azor” e o português “açor”.

 

Gavião (Accipiter nisus). É uma miniatura de Açor. Caça de perdizes para baixo, sobretudo codornizes. É uma ave sensível, nervosa e em nada aconselhada a principiantes. Os machos pesam cerca de 150gr, as fêmeas cerca de 230grs.

5. Alimentação 

As aves de presa são animais carnívoros, alimentando-se apenas de outros animais. 

Em cativeiro, a sua alimentação deve ser semelhante, tanto quanto possível, ao que a espécie comeria em estado selvagem. Por essa razão, é fundamental conhecer a biologia e hábitos naturais destes animais em estado selvagem. 

O falcoeiro deve planear e preparar do alimento da sua ave de forma a reproduzir a sua dieta natural e ao mesmo tempo, de forma a manter a ave saudável (não demasiado magra, nem demasiado gorda).

Para isso o falcoeiro controla não apenas a quantidade de alimento, mas, também, o peso da ave diariamente.

Falcão peregrino a alimentar-se
Falcão peregrino a alimentar-se de um pato

 

A alimentação deve ser variada. Isto quer dizer, utilizar vários tipos de animal como alimento e, além disso, usar várias partes desse mesmo animal como alimento (por exemplo, na ave não deve ser alimentada sempre com peito de codorniz, ou perna de frango. A variedade é essencial). 

Além disso, a alimentação deve incluir não apenas carne limpa mas, também, a pele, penas/pelo e ossos dos animais dados como alimento. Isto é essencial à saúde da ave.

O alimento deve ser sempre correctamente armazenado (a maioria dos falcoeiros recorre a alimento congelado). Além disso, é necessário cuidado com potenciais doenças transmissíveis entre predador e presa. Por essa razão a bio-segurança do alimento é fundamental. 

Ao alimentar-se de pedaços não digeríveis das presas, como o pelo ou penas, a ave de rapina irá formar uma pequena bola de restos (conhecida cientificamente com egagrópila e que em falcoara recebe o nome de plumada). Esta pequena bola é regurgitada, pela boca da ave. Além de ser uma forma de regurgitar estes restos é, também, importante para a limpeza do trato digestivo.

Quando falamos de alimentação, não podemos esquecer a importância da água. A Água é um elemento fundamental e imprescindível às aves de presa.  Por essa razão, devem ter, água à disposição para beber e tomar banho. Algumas espécies de climas desérticos podem consumir pouca água mas, por prevenção, a ave deve ter sempre acesso à mesma. 

 

6. Manter o bem-estar das aves

Manter a ave saudável, com uma boa forma física e mentalmente estimulada é essencial para a prática. Queremos sejam capazes de capturar presas selvagens e isso apenas se consegue quando as aves de presa estão saudáveis e fortes. 

Como a manutenção do bem-estar destes animais é muito importante mas, também, um tema complexo, recomendamos que consulte a nossa página sobre Bem-estar animal e falcoaria.

A página que lhe indicamos foi produzida pela Associação Internacional de Falcoaria e contém várias indicações importantes para perceber os fundamentos para a manutenção do bem estar das aves em cativeiro. É uma boa forma de se familiarizar com o tema. 

 

7. Sobre a compra de aves de presa

A aquisição de aves de presa deve ser encarada com a maior responsabilidade. Em Portugal todas as aves de presa estão protegidas por lei e a sua criação obedece a legislação específica.

Resumidamente, todos os criadores de aves de presa devem estar obrigatoriamente registado junto do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas e cada ave de presa deve ser portadora de documentação específica que comprove que foi reproduzida em cativeiro. 

Comprar uma ave de presa é algo que não deve ser feito levianamente. O bem-estar destes animais deve ser a nossa primeira preocupação. Recomendamos aos interessados em iniciar-se na falcoaria, a aprofundar primeiro os seus conhecimentos e aprender sobre a prática e sobre a manutenção das aves de presa antes de qualquer aquisição.  

 

8. Encontrou ou perdeu uma ave de presa?

Caso tenha encontrado uma ave de presa selvagem recomendamos que consulte a informação que disponibilizamos na página: Encontrou ou perdeu uma ave de presa?

 

8. Conclusão

Existem diversas espécies de aves de presa que são excelentes caçadoras e por essa razão são excelentes para a falcoaria. Nesta página listagem identificamos as que, mais frequentemente, são escolhidas pelos falcoeiros. 

Aconselhamos todos os interessados a começar por conhecer as espécies de aves de presa, os seus hábitos e biologia. Um bom manual sobre aves, em estado selvagem, pode ser uma uma excelente ajuda.